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Rostos da

Câmara

Na terceira e última reportagem da série, os personagens que fizeram e fazem o Legislativo

Em 125 anos de história, 265 vereadores foram eleitos em Caxias do Sul. Outros também assumiram na condição de suplentes. Muitos seguiram carreira na política e tiveram destaque estadual e até nacional. Da Câmara, saíram lideranças importantes, que conquistaram altos postos. Mansueto Serafini (PTB), por exemplo, foi prefeito de Caxias duas vezes. Germano Rigotto e José Ivo Sartori, ambos do PMDB e vereadores na mesma legislatura (1977-1982), chegaram ao Palácio Piratini. Pepe Vargas (PT), além de prefeito e deputado, foi ministro durante o governo da ex-presidente Dilma Rousseff


Na terceira e última reportagem da série sobre os 125 anos do Legislativo caxiense, escolhemos algumas figuras que contam como foi a experiência na Câmara. Mostramos também o depoimento de José Bianchi, servidor aposentado recentemente, após 30 anos de serviço público.  

30 anos servindo o Legislativo caxiense 

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José Bianchi, servidor da Câmara recém aposentado

Se fosse vereador, José Bianchi, 56 anos, teria encerrado o nono mandato na Câmara. Servidor da Casa, ele começou a trabalhar em 10 de agosto de 1986 como tesoureiro, função que desempenhou até 18 de setembro deste ano. O agora funcionário público aposentado é uma das pessoas que melhor conhece o Legislativo caxiense.

Das nove sedes da Câmara, Bianchi passou por seis. Quando ingressou, o Legislativo ficava no prédio do Mútuo Socorro. Em 1988, a sede passou a ser no terceiro andar no Centro Administrativo e Bianchi, claro, ajudou a fazer a mudança.


– Transportamos os processos em uma Belina. Enchemos até o teto. Na Sinimbu, na subida, a porta traseira abriu e caíram algumas caixas. Só percebemos quando chegamos na prefeitura. Tivemos que ir lá buscar. Foi bem constrangedor – recorda.


Com o incêndio que atingiu a Câmara em 1992, serviram como sede os prédios da Codeca, Rincão da Lealdade e Galeria Jotacê. Os espaços eram sempre alugados, por isso, Bianchi considera a construção do atual prédio o fato mais significativo dos 125 anos da história do Poder.


– Tenho muito carinho pela Câmara. Se alguém faz um furo na parede, eu fico louco, porque cada buraco que se faz é uma ferida que fica – diz Bianchi, que integrou a comissão responsável pela construção da sede própria. 

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Integrantes da comissão de obras da sede própria da Câmara de Vereadores de Caxias do Sul. Da direita para a esquerda: José Bianchi, Edson Rech, ex-chefe do RH da Câmara, engenheiro Dalge Dilmar Madeira da Silva e o arquiteto João Alberto Marchioro

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Mais tempo de Câmara


Entre todos os vereadores que passaram pela Câmara, Zoraido Silva (PTB) é o que tem mais mandatos como titular: foram seis – empatada com ele está Geni Peteffi (PMDB), já falecida. Zoraido entrou na Câmara em 1989 e presenciou muitos episódios, como o incêndio no prédio da prefeitura que consumiu o terceiro andar, onde ficava a sede do Legislativo.

Reeleito para a legislatura seguinte e conduzido à presidência em 1994, retomou o projeto de construção do prédio próprio, inaugurado dois anos depois. A viabilização da obra é uma das iniciativas que Zoraido se orgulha em ter tomado.

– Consegui incluir algumas emendas, como a que criou a Guarda Municipal e o Jardim Botânico nos orçamentos. Foram ideias minhas que depois viraram projetos de lei apresentados pelo Executivo – acrescenta o ex-vereador.

Afastado desde dezembro do ano passado da Câmara, Zoraido diz que está aproveitando a nova fase, sem deixar de lado a política. No dia 5, assume a presidência do PTB de Caxias.

– Em termos de Legislativo caxiense, dei minha contribuição. Não sou muito de me apegar – garante.

Elói Frizzo (PSB) também é dos vereadores com mais tempo de Câmara. Ele cumpre o sexto mandato (incluindo o que assumiu como suplente). 

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Lembranças de Sartori


Por meio da assessoria de imprensa, o governador José Ivo Sartori (PMDB) enviou um depoimento sobre os 125 anos da Câmara.

“Muitas coisas me vêm à lembrança do tempo que passei na Câmara. Evidente que a época era outra, de construção do processo democrático. De um lado estava quem era a favor do governo e do outro quem era contra. Mesmo que o MDB tivesse maioria, estava lutando com toda a sociedade para a construção do processo democrático, da liberdade de organização partidária e de expressão, de manifestação e de mobilização da sociedade. A experiência que tive é que mesmo com os embates duros que travávamos, consegui, com todos aqueles que a gente tinha divergência, guardar amizade e respeito. Participamos juntos, ajudamos a construir o processo que está aí e espero que sejamos capazes de refletir profundamente, para que, no próximo tempo, logo adiante, nós não tenhamos nenhuma superaventura no país. Apesar de todas as dificuldades que temos hoje, a preservação da democracia está sendo um fato fundamental.”

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Uma escola para Rigotto


Governador do Estado entre 2003 e 2006, Germano Rigotto (PMDB) iniciou a carreira política como vereador em Caxias. Ele foi eleito em 1976 ao lado do atual governador José Ivo Sartori (PMDB). Rigotto assumiu em um período que saía do bipartidarismo e se permitia o pluripartidarismo.

O peemedebista lembra que, naquela época, a estrutura da Câmara era enxuta e os vereadores tinham apenas um assessor, que atendia a toda a bancada:

– Era uma única assessora para atender a todos os vereadores da bancada, e isso me fez aprender muito. Eu fazia minhas indicações, meus requerimentos, fazia meus releases e levava na imprensa. A Câmara de Vereadores foi uma escola para mim – afirma Rigotto, que, com a projeção que teve no Legislativo, concorreu a deputado e a prefeito de Caxias do Sul.

O mesmo ambiente de disputa era também de camaradagem e respeito, segundo Rigotto.

– Tinha muita coisa, talvez mais pura que hoje, as brincadeirinhas. O Remo Marcucci (vereador) era uma pessoa que tinha um discurso muito forte, era um bom orador, mas era um brincalhão, pregava peça em um, em outro – recorda.  

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Vereador em período "agitado"


Mansueto Serafini (PTB) esteve na Câmara em um período “muito agitado”, como ele mesmo define. No primeiro ano da legislatura, em 1964, o presidente João Goulart foi deposto e os militares assumiram o comando do país. Quase que por consequência, a Câmara acabou cassando o vereador Percy Vargas de Abreu e Lima, por ser considerado comunista. Mansueto diz que não estava no plenário no momento da votação.

– Foi um período muito agitado, porque já em março teve o golpe militar de 1964. Foi uma época de grandes debates – recorda.

Entre as contribuições daquela legislatura, Mansueto destaca a aprovação da criação do Samae.

– Era um órgão da prefeitura, uma secretaria municipal. Nós aprovamos a transformação em autarquia municipal. Era um projeto de lei do então prefeito Hermes Webber. Conseguimos que a CRT (antiga Companhia Riograndense de Telefonia) fizesse pesados investimentos em Caxias. Defendemos a reforma do Plano Diretor, com novas normas, deixando-o mais dinâmico – acrescenta.

Depois da experiência como vereador, Mansueto foi eleito prefeito duas vezes: em 1976 e 1989.  


Negros 

Se a presença feminina já é pequena na Câmara, a de negros é menor ainda. O primeiro negro eleito em Caxias foi Edson da Rosa (PMDB), em 2005. A vereadora Denise Pessôa (PT), em licença, também se declara afrodescendente.
A historiadora Loraine Slomp Giron, vê uma explicação na ausência de negros na Câmara.
– Como os negros sempre foram minoria absoluta na região, tem que ver isso. Muitas vezes a gente pensa que é racismo, mas não é, simplesmente porque tem um número pequeno. Até hoje não é um número expressivo.

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Ana Corso e Geni Peteffi foram adversárias na política

Participação feminina é pequena

Dos 265 vereadores eleitos em 125 anos, apenas 10 foram mulheres. A Câmara teve ainda outras duas vereadoras suplentes, que assumiram durante licença de titular, o que eleva para 12 a representação feminina na Casa – número ainda assim pequeno. 

A primeira foi Ester Troian Benvenutti (PTB), eleita em 1960. A presidência do Legislativo somente foi ocupada por uma mulher, pela primeira vez, em 1985: Rachel Grazziotin (PDT) foi a responsável pela marca.


A vereadora com mais tempo de Câmara é Geni Peteffi (PMDB), já falecida. Foram seis mandatos consecutivos. Geni morreu em 26 de setembro de 2013, exatamente na data do aniversário do Legislativo. Ana Corso (PT) foi uma das vereadoras que mais conviveu com Geni, e com quem mais teve embates.


– Nos meus 16 anos de Câmara, a vereadora Geni fez parte. Enquanto adversárias políticas, cada uma defendia com unhas e dentes aquilo que achava o mais correto, mas fora disso, a Geni tinha um lado bastante humano e sensível. Ela sempre lembrava, todos os anos, do meu aniversário e me dava flores. Ela foi uma líder política importante na Casa, tinha liderança nata e competência. Era uma vereadora que conhecia a legislação. Faz muita falta. Foi uma mulher muito forte – define.


Ana, agora, é a vereadora viva com mais tempo de Câmara: quatro mandatos consecutivos, a partir de 1997. Na legislatura passada, ocupou a cadeira deixada pelo vereador Kiko Girardi, que perdeu a vaga por trocar o PT pelo PSD. Hoje, Ana substitui Denise Pessôa (PT), que está em licença-maternidade.


Para ela, o preconceito em relação à participação da mulher na política tem diminuído, mas a presença feminina ainda é pequena.


– Continuamos sendo minoria nos parlamentos. Isso tem a ver com uma construção histórica de opressão das mulheres. Nosso Legislativo é um exemplo. Aumentou o número de vereadores, mas a participação feminina permanece igual à de 1997. Eram 21 vereadores e elegemos três mulheres e, na última legislatura, foi só uma. Nesta, que são 23 vereadores, são três mulheres. Não cresce esse número – analisa.


O mais jovem da história

O vereador mais jovem da história do Legislativo caxiense tinha 21 anos quando foi eleito, em 2012. Rafael Bueno (PDT), reeleito no ano passado, não imaginava que carregaria essa marca quando concorreu pela primeira vez. Na verdade, ele sequer imaginava que seria eleito. O fato de ainda ser o vereador mais jovem dos 125 anos da Câmara não é algo que o agrade. Bueno gostaria que alguém mais jovem pudesse estar no Legislativo também.


– Acho que hoje o município carece de lideranças jovens. Gostaria que alguém batesse essa marca, mas não vejo perspectiva de lideranças se criando. Os partidos não estão apostando na juventude. Mas gostaria que algum jovem ocupasse lugar.  


O vereador mais jovem da história da Câmara não pretende permanecer para sempre na política. Formado em História e cursando Sociologia, Bueno quer ir para a sala de aula.


– Sou professor e quero dar aula.

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Mandato para ganhar experiência e desfazer preconceitos 


Primeiro vereador eleito pelo PT em Caxias, Pepe Vargas ficou conhecido por recusar o aumento de 99% no início dos anos 1990 e devolver o valor. Após uma ação popular, a Justiça considerou o reajuste ilegal e até hoje há ex-vereadores que não fizeram a devolução do dinheiro recebido indevidamente. O episódio, sem dúvida, contribuiu na vitória de Pepe para a prefeitura em 1996. A experiência na Câmara, segundo ele, foi fundamental para conseguir administrar a cidade.


Além disso, a passagem pela Câmara também fez Pepe deixar de lado alguns preconceitos. Colega de Câmara do ex-vereador José Enedir Dias Bemfica, já falecido, o petista admite que havia ressalvas em relação a ele por ter sido sargento do Exército durante o regime militar.


Quando Bemfica assumiu a Comissão de Direitos Humanos da Câmara, houve um certo mal-estar. Mas quando a comunidade do atual núcleo habitacional Marianinha de Queiroz estava prestes a ter que deixar a área por conta de uma reintegração de posse, Bemfica ajudou a conduzir a negociação com o Executivo para suspender a medida.


– Um dia eu fui para a tribuna e fiz uma intervenção e dizia: “eu quero fazer uma confissão pública, quando assumi como vereador, eu tinha preconceito, uma visão pré-concebida do Bemfica e hoje eu mudei minha opinião. Embora, eventualmente, a gente tenha divergência, ele está sendo um presidente exemplar da Comissão de Direitos Humanos e quero reconhecer de público, primeiro, meu preconceito, pedir desculpas para ele e, segundo, parabenizar pela conduta” – lembra.


Bemfica ficou emocionado e os dois viraram amigos. No segundo turno da eleição de 1996, Bemfica apoiou Pepe. 

Acompanhe a produção dos vereadores de Caxias no Olhômetro, ferramenta digital do Pioneiro. Também confira os discursos em texto e vídeo no Parlavox, plataforma disponível no site da Câmara.

Clique na imagem para acessar o Olhômetro

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