A vida vista do alto

Para ler ouvindo:

Conheça histórias DE PESSOAS QUE ESTÃO muito acima da média quando o quesito é altura

PUBLICAÇÃO EM 19 DE NOVEMBRO DE 2016

TEXTO

Diego Adami

diego.adami@pioneiro.com

Maurício Reolon

maurício.reolon@pioneiro.com


Imagens

Marcelo Casagrande

marcelo.casagrande@pioneiro.com



INFOGRAFIA

Guilherme Ferrari

Em uma sociedade que se preocupa cada vez mais em trazer opções a todos os públicos da melhor forma possível, ser muito alto ainda pode ser um problema. Neste caso específico, não se trata de uma doença ou de um problema crônico, mas algo natural por conta da elevação da média de estatura das pessoas com o passar do tempo. 


Basicamente, ainda não se consegue tratar das dificuldades por conta de uma característica física na relação com os mecanismos disponibilizados no dia a dia. Basta olhar ao seu redor e entender. Para os que estão bem acima da média dos brasileiros, de 1m73cm para homens e 1m61cm para mulheres, conforme uma pesquisa divulgada recentemente (veja abaixo), sobram incômodos. A começar pelas moradias.


A maioria das casas, apartamentos ou quartos de hotéis tem pias e chuveiros baixos e camas e colchões padronizados. São apenas alguns exemplos. Para sair dessa situação, só recorrendo a medidas especiais. Dá para imaginar alguém de mais de dois metros de altura limpando a casa com aquelas vassouras com cabos tão curtos ou com um aspirador de pó? É complicado. 


Na hora de comprar roupas ou calçados, os tamanhos normalmente não fogem de um padrão. Isso sem contar nos espaços em ônibus, carros, assentos de aviões, todos apertados para quem está fora do "padrão". 


Logicamente, não existem apenas problemas ou dificuldades. E, muitas vezes, o bom humor faz uma diferença tremenda para lidar com as situações mais desconfortáveis. É só falar com alguns "gigantes" para entender. Todos eles já responderam perguntas corriqueiras, que vão desde o "joga basquete ou vôlei?", até as brincadeiras de família de "como está o tempo aí em cima?" ou "cresceu mais?".

Estaturas médias

  •  Uma pesquisa divulgada em julho pela revista científica eLife mapeou a variação de altura de homens e mulheres de 187 países entre 1914 e 2014. De acordo com o estudo, o homem brasileiro tem em média 1m73cm e a mulher, 1m61cm. Com essas medidas, o Brasil ocupa a 68ª posição para homens, à frente de países como Portugal, México e Chile, e atrás de Romênia, Argentina e Jamaica, e a 71ª para mulheres, acima de Turquia, Argentina e China, mas abaixo da Espanha, Israel e Inglaterra


  • Em 10 anos, no Brasil, o crescimento médio, tanto dos homens quanto das mulheres, foi de 8,6cm


  • Conforme o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), a altura média do homem brasileiro aos 19 anos, em 2008-2009, era de 1m72cm (ante 1m69cm em 2002-2003).
  • A pesquisa, que recebeu o nome Um Século de Tendências na Altura Humana, se baseou em dados militares, estudos governamentais sobre saúde e mudanças do modelo na altura de jovens com 18 anos. — A genética influi muito na altura das pessoas, mas a nutrição adequada, a educação, as boas condições de vida e a prosperidade econômica fazem com que os indivíduos alcancem a máxima altura que sua genética permite. Como o crescimento econômico tem sido muito desigual, os habitantes dos países mais ricos continuam sendo aproximadamente 20 centímetros mais altos que os dos países mais pobres — afirmou ao jornal El Pais o cientista espanhol Fernando Artalejo, da Universidade Autônoma de Madri, um dos que forneceram dados para o estudo. Segundo Artalejo, “a altura dos indivíduos mede o desenvolvimento de um povo”.


  • Entre as mulheres, conforme o IBGE, a média em 2009 era de 1m61cm e 1m60cm em 2003.

Bom humor para lidar com as dificuldades

Do alto dos 2m10cm, Felipe Rech fala com tranquilidade e bom humor sobre as alegrias e dificuldades de ver o mundo de cima. Natural de Joinville, o jogador chegou à Serra há pouco mais de dois meses, para atuar no Caxias Basquete, no Estadual e no NBB, o campeonato brasileiro da modalidade. Dentro da quadra, a estatura é um diferencial, apesar da concorrência pesada de outros gigantes. Mas nem tudo são flores.


Desde criança, Rech precisou aprender a lidar com a própria altura. E o começo no esporte ajudou muito, mesmo que essa largada tenha sido de forma inusitada.


— Sempre fui muito alto. Depois dos 12 anos foi absurdo. Com 13, tinha mais de 1m90cm. Na escola não tinha ninguém nem perto. E eu nem jogava basquete. Comecei porque o (Alberto) Bial, técnico do Joinville na época, me viu na rua, com 16 anos, e chamou para treinar — relembra.

O que incomodava o garoto passou a ser um fator positivo dentro e fora da quadra. Rech diz que nunca se incomodou com as brincadeiras ou se lembra de qualquer apelido. O grandalhão passou a ser visto como atleta, e o maior desafio foi justamente lidar com as dificuldades naturais de um esportista que viaja muito e precisa se adaptar a diferentes realidades.

— No avião incomoda demais. Não tenho como dormir, porque não consigo apoiar a cabeça no encosto. Tanto que antes de viagens longas tento dormir bem porque sei que vou sofrer no caminho. Algumas empresas até nos colocam na saída de emergência, mas é difícil, até por ser pago agora. A cama de hotel tem vezes que é complicado também. Precisa dormir encolhido e daí acaba doendo as costas porque sobrecarrega — conta.

No apartamento que Rech divide com o companheiro de equipe Fernando Buboltz, a situação é, no mínimo, curiosa. O jogador precisa se abaixar para passar por qualquer porta ou divisória. Sentado em cadeira, boa parte das costas ficam sobre o encosto. Nada que o faça fechar a cara. É mais um motivo para brincar com a situação e relembrar de um fato marcante.

— Quando fui conhecer a família da minha namorada foi engraçado. A Fran tem 1m87cm e joga a Superliga de Vôlei feminino pelo Minas, de Belo Horizonte. É gigante para os familiares dela. Quando cheguei, foi um espanto de todos. Ela ficou anã do meu lado. A gente anda no shopping e todos param para olhar o casal gigante. Só que nem toda a hora você quer chamar a atenção, né? É algo meio chato, especialmente no ônibus — comenta Rech.


Além do avião, o transporte coletivo é outro problema para um gigante de 2m10cm. Não tem jeito, a saída é ficar com o pescoço dobrado e aguentar os olhares atentos das outras pessoas.


— Aí você não sabe se é porque estão olhando o cara alto ou se a camisa está suja ou algo assim. É complicado. Já não basta todo mundo olhando para você como se fosse um alienígena, ainda precisa ficar com a cabeça para baixo e encolhido. Tem que colocar o pé na escada para dar uma aliviada no problema — diz o jogador de 22 anos.

Olhos curiosos para os
gigantes Arthur e Marcão 

 Um pouco mais "baixinhos" que Rech, o ala/pivô Arthur Bernardi, de 2m07cm e o pivô Marcus Vinicius Inácio, o Marcão, de 2m05cm, também defendem o Caxias Basquete no NBB 9 e compartilham muitas das histórias do maior da turma. Em comum, o fato de serem pontos fora da curva em suas famílias, que não tinham qualquer referência com mais de dois metros.


Bernardi, 26 anos, é natural de Caxias do Sul e antes de se tornar profissional precisou passar por sessões de fisioterapia para alinhar a postura. Na época do colégio, não era o maior da turma, mas a partir dos 15 anos cresceu muito e viu no basquete um caminho natural. Depois de jogar em São Paulo, teve experiências nos Estados Unidos e na Espanha.


— Nos Estados Unidos, eles buscam a altura como primeiro fator. Lá tem muitos jogadores e muitas faculdades. Você precisa preencher um espaço diferente. Daqui a pouco nem estava tão bem em São Paulo, mas chamei a atenção deles pelo tamanho e por ter uma certa habilidade — relembra.


Se abaixar para tomar um banho, ter dificuldades para encontrar o tênis para o pé tamanho 47 ou se encolher na cama do hotel já são situações corriqueiras para Arthur.

Nos Estados Unidos, segundo ele, a principal diferença está na forma como as pessoas altas são vistas.

— Lá é mais fácil para tudo. A cultura é diferente, olham as pessoas altas de outra forma. Aqui eu estou em um restaurante e ficam me olhando. Não sei se é porque sou uma aberração ou sou bonito — brinca Arthur.


No caso do paulista Marcão, que além de ser alto chama a atenção pela força, e pelo estilo na barba e no cabelo, o esporte sempre fez parte da rotina e ajudou a superar qualquer dificuldade em relação à altura.


— Sempre fui grande e gordinho. Era o maior da escola, maior até que os meninos mais velhos. Aí tem os dois lados: tacham você de o grandão bobão, mas você começa a fazer o esporte e vira o popular. Joguei vôlei, fui goleiro, fiz cinco anos de natação. O basquete foi a última opção. Na escola jogava todos campeonatos — relembra.


No dia a dia, coisas naturais para quem tem a altura mediana são fardos complicados para quem precisa se adaptar. Marcão diz que nunca se incomodou por ser alto, muito pelo contrário. Mas lamenta que poucas vezes existe a preocupação em atender esse tipo de público.


— Quando você entra em uma casa ou um apartamento normal, a primeira coisa que a gente vê é o chuveiro. Normalmente, dá só um banho de ombro. Depois, a pia na cozinha, a cama. De solteiro, sem chance. Tem que ser de casal para dormir atravessado. De resto, só adaptando ou pedindo para fazer especial — conta o pivô.

"Tô nem aí"

Objetos de desejo da maioria das mulheres, os sapatos de salto alto passam longe do guarda-roupas de Aline Silva. Não que ela não goste, mas o fato é que eles são absolutamente desnecessários para a bancária de 30 anos e 1m92cm. Por incrível que pareça, ela os usou apenas uma vez na vida.


— De tanto me falarem que eu devia ser modelo, um dia resolvi aceitar uma proposta de trabalho e tive que usar salto alto. Mas vi que (ser modelo) não era o que eu gostava — conta ela.

Embora conviva bem com a própria altura, bem acima da média da mulher brasileira (1m61cm, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística - IBGE), Aline conta que na adolescência foi mais difícil.

— Antes mesmo de perguntar meu nome, perguntavam minha altura, como se fosse algo de outro mundo — lembra.

Hoje, ela procura levar numa boa piadas e brincadeiras. Mesmo assim, diz passar por dificuldade na hora de ir às compras.


— É preciso garimpar muito. Calças jeans sempre foi uma dificuldade para encontrar, porque normalmente as pernas são mais curtas. Quando são mais compridas, a numeração também é maior na cintura, daí também não serve — relata.


Por calçar 40, Aline também já passou por maus bocados para encontrar tênis ou rasteirinhas:


— "Esse aqui é unissex", me disse uma vendedora. Mas não era. Era um tênis masculino. Não era um modelo feminino com numeração maior. É bem complicado — reclama.


Sempre bem humorada, Aline aprendeu a fazer graça da própria altura para quebrar o gelo em algumas situações. Como fazer uma foto, por exemplo.


— Como sei que alguém sempre vai fazer uma piada, já me adianto e aviso que eu faço a selfie. Afinal, já tenho um "pau de selfie" natural — brinca, referindo-se ao comprimento dos braços.


Recém chegada da Europa, onde percorreu o Caminho de Santiago de Compostela, Aline diz ter percebido que a curiosidade em relação à altura é algo característico dos brasileiros.


— Passei 32 dias dormindo em albergues e ninguém perguntou minha altura durante todo esse tempo.

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