Cerco aos neonazis

O ultranacionalismo que avança na Europa, em um contexto de crises econômicas e humanitárias pelo mundo, produziu efeitos no Brasil, estimulando pequenos grupos que tentam revigorar fantasmas civilizatórios como as teorias da supremacia branca. No Rio Grande do Sul, a polícia investiga nove jovens, alguns deles por conta de contatos com um italiano de extrema-direita que teria recrutado militantes para batalhões da guerra civil na Ucrânia. Dois investigados são de Caxias

PUBLICADO EM 14 e 15 DE JANEIRO DE 2017

TEXTO

Carlos Rollsing

carlos.rollsing@zerohora.com.br

Cid Martins

cid.martins@rdgaucha.com.br

Maurício Toneto

mauricio.tonetto@pioneiro.com



INFOGRAFIA

Guilherme Ferrari

Oconflito entre Ucrânia e Rússia no Leste Europeu, que se arrasta por mais de dois anos, gerou ações de recrutamento de lutadores e simpatizantes no Brasil. No Sudeste e no Sul, um italiano de extrema-direita teria atuado como caçador de militantes – com gaúchos entre eles – para as organizações conhecidas como Batalhão Azov e Misanthropic Division (Divisão Misantropa, grupo que congrega pessoas avessas a... pessoas). As duas são pró-Ucrânia, nacionais-socialistas e nasceram para enfrentar as tropas pró-russas e separatistas em 2014, época em que eclodiu o conflito. Parte de seus membros é antissemita e defensora da supremacia racial. O Batalhão Azov inclusive ostenta símbolos de inspiração nazista.

Ambas as organizações espicharam ramificações pelo mundo, chegando à América do Sul. Aos seus seguidores latino-americanos – em número restrito: cerca de 50 extremistas no Rio Grande do Sul são monitorados pelas autoridades –, oferecem mais do que ideologia. Pelo menos um gaúcho de Canoas esteve em 2014 na guerra da Ucrânia, onde recebeu treinamento militar, aprimorou habilidades para fabricar bombas caseiras e participou de combates. Uma mulher de Caxias do Sul, considerada intelectual das correntes de extrema-direita, foi contatada pelo italiano Francesco Fontana, apontado como recrutador, e convidada a integrar o setor cultural da Misanthropic Division Girls. Um terceiro, também de Caxias, esteve em 2016 na Espanha para se encontrar com um grupo batizado Crew 38, dedicado à cultura e à música nazi. A reportagem apurou que pelo menos dois jovens paulistas também estiveram no front ucraniano.

É um novo perfil dos extremistas que se aproximam de movimentos nacionais-socialistas, ideologia do governo de Adolf Hitler na Alemanha nazista (1933-1945). Nos anos 1990, os brasileiros que se envolviam com essas teses não passavam do ideário e da busca por livros revisionistas – textos que negavam o Holocausto (o genocídio de cerca de 6 milhões de judeus na II Guerra Mundial) –, parte deles escrita e vendida no Rio Grande do Sul. Ainda hoje, uma livraria em Torres, no Litoral Norte, mantém um estoque com centenas de exemplares dos livros do gaúcho Siegfried Ellwanger Castan (1928-2010), um guru dos nacionais-socialistas.

Material apreendido pela Polícia Civil
em 8 de dezembro de 2016:
foram cumpridos mandados
em sete municípios gaúchos

Polícia Civil, divulgação

É um novo perfil dos extremistas que se aproximam de movimentos nacionais-socialistas, ideologia do governo de Adolf Hitler na Alemanha nazista (1933-1945). Nos anos 1990, os brasileiros que se envolviam com essas teses não passavam do ideário e da busca por livros revisionistas – textos que negavam o Holocausto (o genocídio de cerca de 6 milhões de judeus na II Guerra Mundial) –, parte deles escrita e vendida no Rio Grande do Sul. Ainda hoje, uma livraria em Torres, no Litoral Norte, mantém um estoque com centenas de exemplares dos livros do gaúcho Siegfried Ellwanger Castan (1928-2010), um guru dos nacionais-socialistas.

Na década seguinte, afloraram ataques contra judeus, negros, homossexuais e punks, com agressões brutais, esfaqueamentos e assassinatos. Episódio emblemático ocorreu em 2005, quando três judeus foram agredidos por neonazistas em Porto Alegre. Um deles, ferido por golpes de faca, quase morreu. O julgamento dos acusados ainda está pendente.

Agora, numa terceira fase, surge a busca por fazer guerra de verdade. O Leste Europeu aparece como oportunidade, mesclando apelo ideológico e campo de batalha, envolto por uma névoa de romantização da violência e do militarismo.

– Por extrema-direita, podemos entender o forte apelo ao processo de naturalizar formas de diferenciação dos setores da sociedade. Logo, existe a sistematização de um binarismo mutuamente excludente, entre “nós” e “eles”, onde o “outro” necessita ser sanado, reparado ou até extinto.

A porção mais radical da extrema-direita compreende as organizações neonazistas – afirma Odilon Caldeira Neto, doutor em História pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e professor da Universidade Federal de Rio Grande (Furg).

A internet é uma das propulsoras da escalada dos movimentos extremistas. É pelos blogs e redes sociais que acontecem debates, doutrinas, recrutamentos e ações propagandistas. As redes acabam sendo um refúgio para jovens que, após frustrações e isolamentos sociais, decidem se radicalizar e cultivar ódio racial.

Foi a partir de contatos virtuais que Francesco Fontana – investigado pela polícia gaúcha e monitorado pela Interpol por sua atividade política – veio parar no Brasil em outubro de 2015. Um grupo de simpatizantes viajou a São Paulo para conhecer o homem mais velho, hoje com 54 anos, que colhia fama entre extremistas por estar, àquela época, lutando nas trincheiras ultranacionalistas do Batalhão Azov.

Fontana diz que atravessou o Oceano Atlântico apenas para contar histórias de guerra aos brasileiros. Autoridades nacionais e internacionais acreditam que ele tinha a missão de recrutar combatentes para o Azov e a Misanthropic Division.

A guerra na Ucrânia arrefeceu e, hoje, a importação de lutadores decaiu significativamente. Confrontos pontuais prosseguem, mas a Rússia, que já anexou a Criméia, uma parte do antigo território ucraniano, está agora mais ocupada com o conflito na Síria.

A própria conexão de Fontana com simpatizantes brasileiros regrediu. Ele, que já deixou o Azov, não teria mais mantido contato com a aliada de Caxias desde janeiro de 2016. Até pelo esfriamento da guerra na Ucrânia, a Polícia Civil não colheu provas definitivas de que havia um plano para alguma espécie de ataque no Estado. Não houve indicativo nesse sentido. Ainda assim, ao final de meses de investigação, o delegado Paulo Cesar Jardim, da 1ª Delegacia de Porto Alegre, obteve mandados e fez buscas nas casas de nove militantes gaúchos em 8 de dezembro.

A opção, diante do que a polícia classificou como “suspeita”, foi por agir preventivamente para desmobilizar o grupo. Pelo menos três dos investigados têm histórico de violência social. Em demonstração de ousadia dos radicais, o delegado Jardim recebeu ameaças e teve a sua casa pichada com uma suástica, símbolo maior do hitlerismo.

Para especialistas, o novo momento dos extremistas, casando ideologia e conservadorismo com as conexões europeias, pode significar problemas.

– Como a saída é a violência, jovens adeptos dessas ideologias buscam praticá-la onde isso é possível. Daí a alternativa ucraniana. Provavelmente não se trata só de lutar por nacionalistas da Ucrânia, mas sim de ganhar experiência e pôr em prática essa violência no Brasil. Isso pode representar uma ameaça no futuro – avalia Fabiano Mielniczuk, professor de Relações Internacionais da ESPM e diretor da Audiplo: Educação e Relações Internacionais.

Caminhos abertos para o recrutamento

Passado e presente da civilização estão na base dos argumentos de quem procura explicar as brechas para a retomada de movimentos nacionais-socialistas de cunho racista. Duas crises contemporâneas, a econômica e a humanitária, que provocam falta de perspectivas e deslocamento forçado de populações, são apontadas como as razões de fundo para a onda de extrema-direita, que traz consigo discussões de supremacia racial e aversão a pautas do chamado mundo moderno. O fechamento de fronteiras, a eliminação do eventual concorrente e a violência passam a ser caminhos.

– Nos anos 2000, a crise econômica aumentou o número de desempregados e potencializou a adesão a movimentos nacionalistas. A cereja do bolo veio com a crise migratória e os atentados terroristas contra o Ocidente. A partir de então, a modernidade representada pela integração europeia passou a ser vista como uma ameaça e o nacionalismo foi reforçado via atitudes xenófobas. Tanto o Brexit (saída da Inglaterra da União Europeia), quanto a eleição de Trump (nos Estados Unidos) refletem um pouco essa atmosfera global. Não teria como o Brasil passar incólume – afirma Fabiano Mielniczuk.

No Rio Grande do Sul, o contexto de crise provocou o crescimento de manifestações xenófobas e racistas contra os imigrantes haitianos e senegaleses. É em situações como essa que o nacionalismo radicalizado aflora.

– Isso acontece especialmente quando a juventude fica sem perspectivas: qualquer idiota com uma mensagem, por mais idiota que seja, consegue público. Eles sempre dizem “eu sei, o caminho é esse”, e geralmente apontam culpados – diz Jair Krischke, fundador e presidente do Movimento de Justiça e Direitos Humanos do Rio Grande do Sul.

Embora o cenário imediatista funcione como estopim para o crescimento da onda extremista, é de conhecimento de autoridades e estudiosos o fato de que grupelhos neonazistas se mantêm vivos há décadas, mesmo em período de aparente bonança econômica. Aí, neste ponto, emergem as razões históricas e geográficas do Brasil. Mielniczuk diz:

– Entra o fato de o Rio Grande do Sul ser um Estado de imigração europeia. Não se pode esquecer que, por trás da importação de mão de obra europeia, no Império Brasileiro, estava a ideologia de embranquecimento da sociedade e a crença de que os negros não desempenhariam bem suas funções em uma economia assalariada.

Isso não significa que o descendente de europeu é apoiador de causas supremacistas por natureza, mas que ele pode estar mais propenso a esse tipo de atitude, sobretudo em época de crise.

– É equivocada qualquer associação entre a imigração alemã e a formação de grupos neonazistas, como se os descendentes de europeus fossem automaticamente adeptos do nacional-socialismo. O que ocorre é essa atribuição, por parte dos militantes da extrema-direita, à imaginação de uma condição social (superior) do território do Rio Grande do Sul. Esse fator é ressaltado pelo fato de que o grupo Misanthropic Division, em sua carta de fundamentos, diz ser um movimento destinado exclusivamente a europeus ou eurodescendentes. Os seus membros se postulam como europeus em terras tropicais, por mais distante da realidade que essa condição possa ser – aponta Odilon Caldeira Neto.

Ele ainda destaca questões geográficas, como a proximidade com a Argentina, país que conta com grupos mais robustos de extremistas e que, após a II Guerra, recebeu secretamente em exílio colaboradores diretos de Hitler.

Krischke, citando manifestações nazistas em parques e estádios de futebol de Porto Alegre, no final dos anos 1930, acrescenta:

– Há um caldo de cultura muito antigo, e mais um elemento: o separatismo. Há grupos separatistas que são fortes, importantes até no cenário social, e se tu olhares esses caras, tanto os daqui quanto os de Santa Catarina e do Paraná, eles têm um viés neonazista. Eles propõem criar aqui um novo país branco. Isso tudo, nos momentos de crise, abre espaço para (os jovens) serem cooptados por essas ideias esdrúxulas.

Apesar do agito momentâneo, especialistas acreditam que o nacional-socialismo não deverá alcançar maiores patamares na sociedade brasileira.

– A ameaça de um “retorno nazista” é praticamente nula, inclusive porque esses grupos procuram a marginalidade e ilegalidade do campo político. Contudo, a ameaça reside na interação entre tendências da extrema-direita que, sob pontos comuns, tais como a negação dos direitos humanos, às políticas afirmativas e de reparação histórica, podem gerar manifestações política.

Passado sombrio: manifestação nazista
no estádio de futebol
do extinto G.E. Renner, em Porto Alegre,
no final da década de 1930

Fundação Getúlio Vargas, reprodução

As conexões brasileiras
de um extremista italiano

Francesco Fontana (à direita) na Ucrânia,
em 2014: combatente do Batalhão Azov, 
que exibe símbolos do nazismo

Fausto Biloslavo, arquivo pessoal

Notório militante político de extrema-direita na Itália e em outros países da Europa, Francesco Fontana, 54 anos, esteve no Brasil entre outubro e novembro de 2015 para encontrar um grupo de simpatizantes. Em fotografia tirada numa pizzaria de São Paulo, Fontana aparece na companhia da caxiense M.T. (neste caso, o Pioneiro irá preservar os nomes dos investigados porque os inquéritos não foram concluídos) e outras seis pessoas. A Polícia Civil gaúcha suspeita que ele tenha viajado até Caxias.

Ligado à CasaPound, movimento neofascista italiano, o militante, que nasceu na Toscana e vive agora em Turim, ganhou fama por ser um dos primeiros estrangeiros a lutar na guerra civil da Ucrânia, em 2014. Em maio daquele ano, ele juntou-se ao Batalhão Azov para combater os separatistas pró-Rússia na região de Mariupol. Fontana também integrou a organização paramilitar nacional-socialista Misanthropic Division (MD), que ganhou força com o acirramento dos conflitos na Criméia e criou ramificações na Rússia, Bielorrússia, Alemanha, Argentina e nos Estados Unidos.

No Brasil, um dos elos da MD foi temporariamente consolidado entre Fontana e M.T.. A rede, rebatizada de Phoenix Division para escapar da vigilância, age principalmente por meio da internet, com atualização de blogs, redes sociais e publicação de informativos digitais.

As premissas ideológicas da Misanthropic incluem antissovietismo, racismo, antissemitismo, sexismo e homofobia. Em depoimento à Polícia Civil, M.T. disse que mantinha um site chamado European Culture – hoje desativado –, no qual escrevia sobre antigos povos europeus, e que Fontana descobriu a página e a procurou para reproduzir alguns textos para a Misanthropic.

– Ele (Fontana) é responsável por cooptar pessoas à Misanthropic. Buscava guerrilheiros urbanos, talvez mercenários, para lutar na Ucrânia – afirma o delegado Paulo César Jardim.

Os envolvidos no episódio negam que o encontro em São Paulo tenha ocorrido para planejar ações no país ou atrair novos membros. O jantar teria sido marcado apenas para que o italiano relatasse vivências da guerra civil. M.T. garantiu que nunca tratou de possíveis ataques extremistas no

Rio Grande do Sul. Assegurou que, desde janeiro de 2016, o vínculo foi rompido e disse que Fontana chegou a ficar irritado porque ela parou de escrever textos para a causa.

Em março de 2016, a Misanthropic atacou cerca de 200 jovens num evento para discutir direitos LGBT em Lviv, na Ucrânia. No Brasil, a MD realizou duas ações em janeiro do mesmo ano contra a Casa Mafalda, espaço cultural paulistano. No site oficial da organização, hoje fora do ar, havia citações de Hitler sobre “pureza racial”, artigos contra a “promoção do multiculturalismo” e “mistura de raças”, e a defesa de políticas que garantam o patrimônio genético da raça branca. No perfil de Fontana no Twitter, há imagens exaltando Benito Mussolini e líderes nazistas e frases como “refugiados não são bem-vindos” e “Hitler estava certo”.

O jornalista italiano Fausto Biloslavo, 55 anos, conheceu Fontana na Ucrânia e acompanhou treinamentos do Azov antes da batalha de Mariupol. Em entrevista a Zero Hora, Biloslavo relatou que fileiras do Azov eram engrossadas por hooligans de times de futebol como Dinamo Kiev e Metallist. Diversos de seus membros carregavam símbolos de Stepan Bandera (colaborador nazista da II Guerra e ex-líder da Organização dos Nacionalistas Ucranianos, fascista). Todos recebiam forte treinamento militar em guerrilha urbana de instrutores de países europeus.

– Fontana não parece um cara louco. Apenas escolheu, aos 50 anos, lutar, o que, claro, é muito estranho. Por ser mais velho do que os demais, era respeitado – descreveu Biloslavo.

O analista ucraniano Vadym Khomakha afirma, por e-mail, que, “no início, se incorporaram ao Azov muitos voluntários de diferentes nacionalidades, sendo alguns com antecedentes criminais e convicções nacionalistas”, mas diz que há nazistas também nas tropas pró-Rússia. Khomakha confirma, mas minimiza iniciativas de recrutamento por Fontana no Brasil:

– Tal informação foi propagada, prestamos atenção, mas não houve grande repercussão local.

Em 2015, após o caso do ativista estampar manchetes nacionais, o parlamento italiano aprovou uma lei que proíbe cidadãos do país de lutarem em exércitos estrangeiros e movimentos radicais. Desde então, Fontana é vigiado de perto pelas forças de segurança europeias, que acionam a Interpol quando ele viaja. Foi graças a isso que a Agência Brasileira de Inteligência (Abin) ficou sabendo que o ex-combatente do Azov esteve em São Paulo, o que desencadeou outras investigações no Brasil.

“Quem sou eu para recrutar pessoas?”

Entrevista Francesco Fontana, militante Italiano

Em entrevista concedida por Skype, Fontana acusou o delegado Jardim de querer obter “medalhas” e negou ser neonazista.

A polícia diz que o senhor tem conexões com neonazistas no Brasil. É verdade?

Com algumas pessoas, talvez.


O senhor está recrutando pessoas no Brasil para lutar em movimentos neonazistas na Europa? Esteve em Caxias do Sul?

Estive com o Batalhão Azov em 2014, nos primeiros meses do ano, até julho. Em setembro, houve o primeiro grande acordo de Minsk (para o cessar-fogo), e em 2015 eles bloquearam todas as entradas de voluntários. Nunca estive no sul do Brasil, infelizmente. Conheço apenas São Paulo, porque trabalhava com automóveis. Me explique por que um italiano estaria no Brasil para recrutar voluntários? E se eles não podem ser voluntários, seriam mercenários? O único problema é que o Azov pertence ao Ministério do Interior, está legalizado, absolutamente fechado para qualquer estrangeiro. Eu estive lá porque fui um dos primeiros. É apenas para ucranianos. Eles são regularmente pagos com o rico salário de US$ 200 mensais, mais ou menos. E nunca estive em Caxias do Sul, Porto Alegre, Curitiba... Se há nazistas aí? O problema não é meu. E outra coisa: não tenho ligação com nenhum político ou partido no Brasil, porque, francamente, não é do meu interesse. Está claro que o senhor (Paulo César) Jardim (delegado da Polícia Civil gaúcha), que se diz um especialista em “ameaças neonazistas”, está tentando obter “medalhas” ao expor um “problema gigante”.


Há uma foto que mostra o senhor com uma das suspeitas investigadas, chamada M.T.. Conhece ela? Quando foi esse encontro?

Foi em São Paulo. Um jantar, com oito pessoas talvez. Em novembro de 2015, eu acho. É isto.


Como foi organizado?

As pessoas me pediram, pelo Facebook, e eu disse para eles organizarem.


E sobre o que vocês conversaram neste jantar?

Olha, eu não estava recrutando pessoas. Quem sou eu para recrutar pessoas? É uma grande bobagem. Existe algum problema de eu ter batido esta foto? Não estávamos recrutando, tramando um escândalo nazista ou planejando um ataque. Quer saber? Posso ir a um restaurante com alguns amigos curiosos por saber o que acontecia na Ucrânia. E é isto. Algumas caipirinhas, blá-blá-blá e duas fotos. Isso está muito longe de ser uma irregularidade. Procure nas imagens, não há saudações nazistas. Depois fiz turismo, fui ao mercado público, por sinal muito bonito.


Post de Fontana no Twitter:
“Refugiados não são bem-vindos –
#hitlerestavacerto”
, diz o cartaz.
“Absolutamente claro”, comentou o italiano

O senhor não estava convencendo alguém a formar uma célula brasileira da Misanthropic Division? Uma célula feminina, chefiada pela M.T.?

É verdade que mantinha contato com ela, mas não falávamos absolutamente nada sobre guerra. Foi há vários meses. Ela foi (para São Paulo) acompanhada e não demonstrou muito interesse. É isto. Ponto final.


Ela procurou o senhor?

Conheço algumas pessoas, mas isso não tem nada a ver com recrutar pessoas ou organizar um movimento neonazista no Brasil. E também não tenho mais contato com a Misanthropic Division há um ano. Sou muito crítico sobre minha experiência. Eu estava lá pensando e esperando uma revolução feita pelo povo, e tudo virou uma guerra civil suja. As oligarquias foram substituídas por outras oligarquias. Nada mudou. Eles tiveram a chance deles, desperdiçaram, e agora o governo ucraniano é uma vergonha. As rivalidades vão permanecer por gerações entre pessoas da mesma raça, com a mesma genética. Não faz sentido.


O senhor é nazista? Qual é sua ideologia?

Eu sou nacionalista. Para você, para a mídia, posso ser chamado de nazista, mas o fato é que sou um nacionalista. E não estou envolvido com política há pelo menos 10 anos. Eu apenas convivo com pessoas que nem eu, não significa que me envolvo em atividades políticas.


Por que decidiu lutar esta guerra?

Eu estive lá porque surgiu a oportunidade. Fui antes a trabalho e fiquei atraído pela sinceridade da coisa. Fui por lealdade, a Ucrânia havia sido invadida e eu realmente senti bastante, porque havia estado um tempo lá. Eu fiquei muito entusiasmado no começo, agora estou muito cansado. A decisão de ir à guerra e colocar sua vida nas mãos de deuses por um alto ideal é estritamente pessoal e privada.


O senhor viu algum brasileiro no Batalhão Azov e no Misanthropic Division?

No Azov, com certeza, não. No Misanthropic, talvez uns dois ou três. Vi uma vez numa foto. Em algum lugar, li que “dinheiro foi oferecido” às pessoas que aceitassem servir no Batalhão Azov. Não estamos falando de jihadistas ou outros terroristas ou bandidos financiados ilegalmente. Azov é, e sempre foi, uma força armada regular e vitoriosa, que atraiu milhares de patriotas. Desde 2015, os pedidos para entrar no Azov podiam ser feitos só por ucranianos.

É verdade que, no começo de 2015, havia um tradutor croata-francês ajudando na pré-seleção, mas ele foi dispensado. De qualquer forma, a presença de estrangeiros foi regularizada apenas em 2016 pelo parlamento ucraniano, e somente ucranianos podiam ter salário em 2014 e 2015. Com certeza não era algo que poderia atrair soldados para a fortuna. Então, você pode entender como não era nenhum tipo de recompensa econômica atraente para uma opção mercenária.


Quantas vezes o senhor esteve no Brasil?

Várias, sempre a trabalho.


O senhor estava brabo com a M.T. porque ela parou de escrever mensagens apoiando o Misanthropic Division?

Não lembro. É possível...


Que tipo de coisas ela escrevia?

Eu não lembro, acho que era ecologia, animais. Não consigo imaginar a M.T. atacando alguém ou indo para a guerra.


Mas a imaginou recrutando pessoas?

Em primeiro lugar, a M.T. é uma pessoa difícil, ela não pode ficar com as outras. Ela é verdadeiramente misantropa, uma pessoa bem fechada. Ela é uma intelectual, mas recrutar as pessoas e fazer uma revolução? Não. Você pode imaginar alguns garotos estúpidos, mas não a M.T..


O senhor mantém algum contato com a

Não, desde janeiro (de 2016), mais ou menos. Eu parei de me interessar por essas coisas. É muito estranho que você tenha me falado dela. Do que ela é acusada? Ela mora com os pais, é quieta, não sei, espero que ela não esteja envolvida em problemas por causa de alguns livros e imagens.


Os gaúchos investigados

A 1ª Delegacia de Polícia de Porto Alegre investiga nove jovens gaúchos suspeitos de integrar grupos de neonazistas ou de estar envolvidos com recrutamento para lutar na Ucrânia. Os crimes apurados são apologia ao nazismo (Lei 7716/89, artigo 20 do Código Penal, sobre praticar, induzir ou incitar a discriminação ou preconceito de raça, cor, etnia, religião ou procedência), que prevê possibilidade de um a três anos de prisão, e organização criminosa (Lei 12850/13, artigo 2º), que prevê de três a oito anos de reclusão. Três suspeitos já depuseram, um de Canoas, outro de Viamão e uma jovem de Caxias do Sul, e um quarto envolvido, também da Serra, vai depor no final de janeiro. Os agentes estão priorizando a análise e a perícia dos materiais apreendidos em dezembro.

M.T.

Universitária de Caxias com camiseta
da Misanthropic Division presenteada
por Francesco Fontana

Polícia Civil, reprodução

Apontada pela Polícia Civil como a intelectual que teria a missão de recrutar outras mulheres para a criação de uma célula da Misanthropic Division no Brasil, a MD Girls, M.T., 29 anos, é estudante de línguas e mora em Caxias do Sul. Começou a se interessar por ideias ligadas ao neonazismo com a leitura dos livros de Siegfried Ellwanger Castan. O contato com as ideias a levou a conhecer um grupo de extremistas na Serra. De 2013 a 2015, ela namorou um europeu filiado a um partido de extrema-direita.

– É estudiosa, uma visionária que auxilia no trabalho de conscientização da evolução do movimento – afirma o delegado Paulo César Jardim.

A suspeita abastecia um blog, chamado European Culture, com textos sobre povos do Velho Continente. O talento dela chamou a atenção do italiano Francesco Fontana.

Na rede social russa VK (Vkontakte), a gaúcha postou pelo menos uma mensagem polêmica, no mural de um neonazista do Leste Europeu, e criticou as “Brigadas de Terror Arianas (ATB, em inglês)” que lutam entre si: “Nos últimos anos, tentamos manter unido o movimento do orgulho branco entre os irmãos. E suponho que qualquer um que quebrar a regra de não lutar entre si deve ser tão duramente punido como um Zog (Governo de Ocupação Sionista, teoria antissemita que defende que os judeus controlam determinado país, enquanto o governo oficial é um regime fantoche)”.

Bandeiras e camisetas da Misanthropic Division, presentes do italiano Francesco Fontana, revelam a proximidade que M.T. construiu com o grupo.

S.R.

Aos 27 anos, S.R., conhecido pelo apelido de G, é envolvido com grupos neonazistas em Caxias do Sul e na Região Metropolitana desde os 17. Em 2011, participou de uma briga em um bar da Capital. Ferido, foi parar no Hospital de Pronto-Socorro (HPS), junto com outras três pessoas – um dos detidos na confusão ostentava tatuagem com a inscrição “Mein Kampf”, em alusão ao livro de memórias de Adolf Hitler. Amigo próximo do também investigado B.M., que é apontado pela Polícia Civil gaúcha como um dos mais atuantes neonazistas do Estado, S.R. começou a adotar a ideologia extremista por influência de um dos fundadores do movimento skin-nazista na Serra. Seu histórico descreve um sujeito violento.

Apesar disso, o jovem leva uma vida aparentemente normal. Empregado na indústria, alterna a rotina entre o trabalho e a vizinhança no bairro Fátima, onde cresceu e mora com os familiares. Nas ruas, porém, adquiriu fama por andar com outros adeptos do extremismo. Os principais pontos de encontro deles são a Estação Férrea, reduto da boemia em Caxias, e um bar do bairro São Pelegrino. Entre os alvos, além de punks e antifas (antifascistas, também violentos), estão imigrantes e travestis.

O jovem S.R. foi até São Paulo para encontrar o italiano Francesco Fontana entre outubro e novembro de 2015, e sentou à mesa com M.T., outra suspeita de Caxias investigada. Ele ainda viajou para a Europa em novembro de 2016 para encontrar membros do grupo Crew 38, uma espécie de clube, também denominado Hammerskin, cujas principais finalidades são produzir e divulgar música de “poder branco”, intitulada Rock Against Communism (RAC), e discutir ideias relacionadas à supremacia branca. Para fazer parte do Crew 38, os sócios pagam mensalidade. Como S.R. passou a ser monitorado pela polícia, foi descredenciado. A reportagem fez contato com ele, que disse que não iria se manifestar.

Material apreendido na casa de S.R. mostra objetos de cunho nazista, inclinação à violência e ligação com o grupo Crew 38, que produz e divulga músicas de “poder branco”. Carimbo no passaporte confirma passagem pela Europa em novembro de 2016, provavelmente para se encontrar com membros do “clube”.

Fotos Cid Martins

B.M.

Atuante desde a adolescência, B.M., morador de um bairro de classe média de Viamão, é um dos militantes extremistas com maior número de episódios de violência no currículo. Entre 2007 e 2013, acumulou nove ocorrências policiais, a maioria por lesão corporal, sendo três delas em Caxias do Sul.

Aos 17 anos, foi preso na Redenção, na Capital. durante uma briga com punks – antigos rivais dos neonazistas devido ao seu perfil desleixado e libertário. Na mesma época, respondeu por tentativa de homicídio por ter esfaqueado um homem. Permaneceu internado na Fase por três meses. Atualmente, é réu na Justiça Federal, junto de outros comparsas, pelas acusações de formação de quadrilha, apologia ao nazismo, propaganda de discriminação racial e porte ilegal de munição.

A denúncia do Ministério Público Federal diz que os crimes teriam ocorrido entre 2007 e 2010, período em que B.M. teria se associado ao projeto Neuland (Terra Nova, em alemão). Também participou de diversas brigas coletivas, algumas delas agendadas pela internet para ocorrer em Porto Alegre nas cercanias de bares da Avenida Independência.

Embora apresente perfil violento, também é um estudioso e doutrinador, com dedicação à leitura e formação nacional-socialista.

Ainda na juventude, mergulhou na ideologia como forma de vida e adquiriu conhecimento. Viajou para encontrar extremistas em Minas Gerais, São Paulo, Argentina, Uruguai e Chile. Viveu e trabalhou nesses locais por breves períodos. Entre 2014 e 2015, chegou a planejar uma viagem de “glória” e “honra” à Ucrânia para lutar ao lado dos neonazistas alistados no Batalhão Azov, em oposição às tropas pró-Rússia, mas o desejo acabou não se concretizando.

Entre as diversas tatuagens que exibe, algumas delas são de símbolos como a suástica, a SS e a imagem de Hitler. Na parte frontal do pescoço, abaixo do queixo, cultiva uma águia nazista, acompanhada de números relacionados à doutrina hitlerista.

Atualmente com 26 anos, B.M. trabalha em um mercado de Porto Alegre e faz curso superior. A reportagem conseguiu conversar com um parente dele, em frente à residência da família, em Viamão. O relato foi de que o rapaz, de fato, se envolveu em diversas confusões no passado, incluindo brigas entre torcidas da dupla Gre-Nal. O familiar disse acreditar que, nos últimos meses, B.M. está procurando se afastar da ideologia neonazista. Ele jogou fora os coturnos e deixou de raspar a cabeça, duas características dos skinheads. Foi relatado que o jovem investiu recentemente suas economias na reforma do quarto, onde tem passado parte das horas de folga escutando música gaúcha. O próprio B.M., em depoimento à Polícia Civil, afirmou que se afastou dos antigos companheiros de ideário e de violência. Disse que está procurando dar outro rumo à vida, embora ainda se sinta socialmente alijado em alguns momentos. Dependendo do lugar a ser frequentado, cobre o corpo para esconder tatuagens. Costuma andar ressabiado pelas ruas em razão da quantidade de inimigos acumulados.

K.R.

Prestes a completar 27 anos, K.R. esteve na Ucrânia em 2014, usando uma rota de avião pelo Chile, para receber treinamento militar e lutar no Batalhão Azov contra as tropas separatistas. É um dos investigados de perfil violento, também conhecido pelo apelido de Homem-Bomba, devido à habilidade para fabricar artefatos explosivos caseiros, destreza que teria aprimorado na Europa. O jovem serviu na Base Aérea de Canoas, cidade onde reside com a família, e demonstra ter um culto por militarismo, fisiculturismo, violência e armas de fogo.

Nas redes sociais, postou fotos com rifle no período em que teria passado na Ucrânia. Em depoimento, ele negou a viagem e disse se tratar de uma montagem para impressionar uma mulher. Na sua residência, foram encontrados restos de materiais utilizados para a montagem de explosivos pela polícia.

K.R. é um sujeito mais solitário, que costuma atuar de forma independente. Não tinha expressão no movimento de nacionais-socialistas do Rio Grande do Sul, mas ganhou envergadura ao se alistar no Batalhão Azov. Estudou engenharia química e desenvolveu habilidades como desenho, construção civil e corte de metais para preparação de facas e machados. No esporte, domina movimentos de ginástica e pratica artes marciais.

A radicalização de K.R. apresenta pontos controversos. Punk no passado, acabou agredido por um dos neonazistas mais antigos, violentos e conhecidos das autoridades gaúchas, de iniciais L.T.. Com o ego ferido e em busca de redenção pessoal, K.R. deixou de ser punk e passou a seguir ideologias mais próximas do nacional-socialismo, a exemplo do seu agressor.

Em uma rede social, o jovem chegou a adotar o sobrenome Berserker, referência a guerreiros nórdicos – eles seriam parte da origem da raça ariana – que ficaram conhecidos na história por sua fúria em combate.

Os seguidores destas ideologias costumam ser conservadores e mais atrelados a ordens religiosas do ocidente. Mas, nos últimos tempos, K.R. se aproximou das doutrinas do islamismo. Serviços de monitoramento informaram que, recentemente, ele passou a manifestar simpatia a grupos extremistas na internet.

A reportagem localizou a residência de K.R. em um bairro de Canoas, que oscila entre as classes média e média-baixa. Uma familiar, breve nos comentários e descontente com a presença de um repórter, apenas disse que o rapaz não se encontrava por aqueles dias. Asseverou que não tinha nada a declarar e que, caso o jovem estivesse no local, a resposta seria a mesma.

C.A.M.

Um dos suspeitos investigados por envolvimento com a Misanthropic Division abastecia, desde Cruz Alta, um blog de doutrina nazista com assuntos como os 12 mandamentos dos nacionais socialistas, a Juventude Hitlerista, o código de conduta do ariano e a cartilha para a criação de um mundo livre de negros, mestiços, homossexuais e outras “aberrações”. C.A.M. foi preso no dia 8 de dezembro com munição ilegal e um vasto material de apologia ao neonazismo, crime que prevê possibilidade de reclusão de um a três anos. O blog, tomado por mensagens de ódio, foi desativado um dia depois, mas a reportagem teve acesso ao conteúdo das postagens. Por vezes contraditórias, elas pregam que o seguidor da ideologia “seja intolerante com aquilo que prejudica, periga e é nocivo para a raça (ariana)” e, ao mesmo tempo, busque “tornar o mundo melhor e mais nobre” e defenda “ideais nobres e humanos da justiça e cortesia”.

– O rapaz é muito inteligente, mas não é de ações, faz apenas divulgação do material deles e pesquisa muito sobre o tema – afirma o delegado Jardim.

A internet, para os neonazistas, é uma arma importante de propaganda ideológica. As postagens deixam claro como a rede deve ser utilizada para evitar o rastreamento dos órgãos de segurança. A Misanthropic Division aconselha a usar um browser no qual “você pode navegar com 100% de anonimato”. Além disso, recomenda que os encontros com simpatizantes ocorram em lugares públicos: “Informe a um irmão de causa e exija que o futuro recruta vá sozinho”.

O blog também trazia “as etapas de restauração da ordem ariana”, conforme a visão da célula da Misanthropic Division no Brasil: militar, lutar, destruir, construir e proteger. Em tom delirante, o blog dizia que “é preciso estruturar muito bem as células para então chegar ao confronto armado, destruindo o Estado, os judeus, os negros e os mestiços”. Em seguida, deve-se assentar a população ariana em locais isolados: “Organize-se com os seus camaradas e comecem a migrar para o campo, compre grandes espaços de terras para a criação de sítios brancos autônomos”. A última etapa, “após alcançado o objetivo de segregação”, é proteger o povo a qualquer custo ante a ameaça de extinção da raça ariana.

R.M. e F.M.

Dois irmãos de Passo Fundo são investigados pela polícia. Skinheads, já estiveram envolvidos em várias ações suspeitas. Os dois têm ligação com os investigados de Caxias do Sul e de Viamão. Apesar de vasto material neonazista ter sido apreendido na casa deles no dia da ação policial, não são integrantes da Misanthropic Division e não tiveram contato com o italiano Fontana.

S.M.

A garota investigada em Erechim é irmã dos dois suspeitos de Passo Fundo e amiga da jovem investigada em Caxias. É integrante da Misanthropic Division Girls, mas não esteve em reuniões e não manteve contato com Fontana.

A.V.S.

O jovem de São Nicolau manteve várias reuniões com os integrantes do MD de Caxias do Sul e é considerado um integrante ligado à ação. A polícia ainda não tem indícios de que ele pretendia ir para a Ucrânia.

Escalada violenta

Anos 1980: é aberta a editora Revisão no bairro Santo Antônio, em Porto Alegre. Comandada pelo gaúcho Siegfried Ellwanger Castan, nascido em Candelária e morto em 2010, publicava obras de cunho racista e antissemita. O principal objetivo de Castan era propagar o revisionismo, corrente que negava o Holocausto judeu na II Guerra Mundial. Entre os polêmicos livros vendidos estavam Holocausto: judeu ou alemão? Nos bastidores da mentira do século e Acabou o gás!... O fim de um mito.


Agosto de 1996: o Tribunal de Justiça (TJ) do Estado condena Castan por editar, vender e fazer apologia a obras consideradas de cunho racista. Foram dois anos de reclusão, revertidos em prestação de serviços à comunidade. Três meses depois, o filósofo Luis Milman flagrou, na Feira do Livro de Porto Alegre, o editor divulgando e comercializando os mesmos livros proibidos. Milman registrou queixa na Polícia Civil e ativisitas procuraram a Justiça, que mandou apreender exemplares.


Final da década de 1990: é fundado em Caxias do Sul o primeiro movimento skinhead-nazista da Serra Gaúcha, sob liderança de Leandro Maurício Patino Braun, o Bitter. No auge, o grupo contava com 30 membros, que frequentavam pontos tradicionais de Caxias, como a Estação Férrea, no bairro São Pelegrino, e perseguiam principalmente punks e travestis.


Julho de 2003: um estudante punk de 24 anos relata ter sofrido agressões de neonazistas armados com bastões e soqueiras quando estava em um bar nas imediações da esquina das vias Barros Cassal e Independência, em Porto Alegre.


Setembro de 2003: o Supremo Tribunal Federal (STF) mantém, por oito votos a três, a condenação de Castan. A posição foi tomada durante o julgamento de um pedido de habeas-corpus formulado pelo editor.


Maio de 2005: um grupo de skinheads-neonazistas ataca três judeus nas proximidades do bar Pinguim, na Cidade Baixa. Duas das vítimas – que usavam quipá para lembrar os 60 anos do fim do Holocausto – foram esfaqueadas, e a outra, espancada. Quatorze suspeitos acabaram denunciados por formação de quadrilha, tentativa de homicídio e racismo. Eles irão a júri popular, sem data marcada.


Agosto de 2005: em Caxias, neonazistas são apontados como suspeitos do assassinato de um homossexual em um parque e de agressões contra um jovem punk.


2009: a Polícia Civil descobre a formação de uma célula da Neuland (terra nova, em alemão) no Estado, uma organização violenta integrada por jovens de classe média e alta

que pregava a morte de judeus e homossexuais e pretendia separar o Sul do resto do país. Na Serra, a organização cometeu pelo menos sete ataques contra gays e negros em poucos meses.

2009: o líder nacional da Neuland, o paulista Ricardo Barollo, é preso pelo duplo assassinato de Renata Waechter Ferreira, 21 anos, e Bernardo Dayrell Pedroso, 24, em Quatro Barras (PR), depois de uma festa que comemorava os 120 anos de nascimento de Adolf Hitler. 


Maio de 2009: é preso em Teutônia,

no Vale do Taquari, Jairo Maciel Fischer, 21 anos, suspeito de integrar o grupo neonazista que assassinou o casal Renata e Bernardo. O caso segue na Justiça. O plano era matar Bitter em Caxias.


Janeiro de 2012: com soqueiras, bastão e facas em punho, um grupo de neonazistas é detido pela Brigada Militar quando estaria prestes a atacar jovens em uma parada de ônibus de Caxias do Sul. Os alvos seriam negros e punks.


Fevereiro de 2012: skatista é agredido a socos e chutes por um grupo de neonazistas em frente a um bar na Avenida Independência, na Capital.

2012: Leandro Maurício, o Bitter, é esfaqueado em uma briga entre skinheads-nazistas e punks em Curitiba. Um amigo dele morreu. As últimas informações sobre Bitter são de que ele se mudou para o Norte ou o Nordeste do país.


2013: a pesquisadora da Unicamp Adriana

Dias publica estudo em que estimou que o Rio

Grande do Sul contava com 42 mil simpatizantes do nazismo – atrás apenas de Santa Catarina, com

45 mil. Ela tomou por base o número de usuários da internet que baixaram mais de cem materiais

de divulgação extremista em um determinado período.


Dezembro de 2016: a Polícia Civil cumpre oito mandados de busca em sete cidades gaúchas com o objetivo de impedir eventuais ações de um movimento armado que estava realizando reuniões com neonazistas no Rio Grande do Sul. Um homem foi preso em Cruz Alta por porte ilegal de munição. Os policiais apreenderam com ele um vasto material de apologia ao nazismo. A operação foi realizada em Cruz Alta, Caxias do Sul, Passo Fundo, Erechim, São Nicolau, Viamão e Canoas. A polícia também apreendeu documentos, computadores e material de propaganda ideológica de outros suspeitos. Investigações apontam que o ativista italiano Francesco Fontana esteve no Brasil no final de 2015 para recrutar jovens para lutar na guerra civil da Ucrânia. O movimento armado ao qual ele pertencia, chamado Misanthropic Division, é ligado ao Batalhão Azov, uma brigada neonazista incorporada às forças armadas

da Ucrânia.

Focos de radicalismo
racial em Caxias do Sul

Soqueira com símbolo nazista
apreendida em janeiro de 2012 junto
a um grupo de jovens em Caxias

Ricardo Wolffenb6uttel, BD, 15/01/2012

Desde a década de 1990, movimentos de extrema-direita são registrados na Serra Gaúcha, contribuindo para a região ser vista como um terreno propício a focos neonazistas. O primeiro grupo conhecido pelas autoridades foi fundado por Leandro Maurício Patino Braun, o Bitter, um skinhead-nazista que teve de deixar Caxias do Sul depois de ser ameaçado de morte por ex-companheiros.

Em 2009, o grupo de Bitter foi desmantelado por dissidentes, que formaram uma célula da Neuland, uma organização violenta integrada por jovens de classe média e alta que pregavam a morte de judeus e homossexuais e pretendiam separar os Estados do Sul do resto do país.

Em 2016, Caxias voltou a figurar como foco de radicalismo racial a partir das conexões de M.T. e S.R. com o italiano Francesco Fontana e a Misanthropic Division, organização ultranacionalista que surgiu na Ucrânia. O flerte caxiense com o extremismo vai ainda mais longe, garante a escritora e historiadora da Universidade de Caxias do Sul (UCS) Loraine Slomp Giron. Na sua tese de doutorado, Loraine pesquisou os motivos da grande adesão da burguesia local ao fascismo às vésperas da II Guerra Mundial. Segundo ela, o município foi fortemente influenciado por Benito Mussolini nas décadas de 1920 e 1930 por causa da Igreja Católica, que incutiu na sociedade ideais fascistas que se refletem até hoje em momentos de crises econômicas e sociais:

– A Igreja defendia (o fascismo) no púlpito. A região, sempre muito católica, absorveu isso com grande facilidade. Nos anos 1970, uma pesquisa do filósofo e pensador Luís Alberto de Boni revelou que Mussolini era uma das principais figuras lembradas aqui.

O presidente da ONG Movimento de Justiça e Direitos Humanos, Jair Krischke, recorda que, quando Getúlio Vargas declarou guerra ao Eixo, em 1942, os idiomas alemão e italiano foram proibidos no Rio Grande do Sul. Junto a isso, houve perseguição a descendentes na Serra:

– Gente da colônia foi torturada e presa. As famílias ficaram chocadas. Várias, até hoje, odeiam esse período e acham que aqueles ideais eram os corretos.

O ufanismo nacionalista atingiu o coração da cidade e os descendentes de imigrantes europeus passaram a sofrer represálias: a Praça Dante Alighieri, escritor italiano autor de Divina Comédia, passou a ser chamada de Praça Rui Barbosa. A mudança de nome ocorreu no dia 22 de maio de 1942 e durou até 1990, 45 anos depois do fim do conflito.

Outro fator apontado por especialistas para a manutenção da ideologia na região é uma identidade imaginada, como explica o doutor em História pela UFRGS Odilon Caldeira Neto:

– É a crença da preponderância do elemento europeu para essa identidade, que passa a ser vista como fator de diferenciação entre “nós” e os “outros”. Assim, determinadas partes do Sul estariam “naturalmente” propensas ao maior desenvolvimento devido ao elemento europeu, retirando, portanto, a imensa contribuição de povos africanos e indígenas à identidade nacional.

A trajetória do neonazismo em Caxias mostra que, ao longo dos anos, a ideologia vem recrudescendo. Na época de Bitter, as ações ocorriam quase sempre contra punks. O extremista chegou a ser recolhido ao Presídio Central de Porto Alegre e será julgado por formação de quadrilha e tentativa de homicídio por participar de agressão contra três judeus – dois esfaqueados – na Capital, em 2005, na Cidade Baixa.

Em outro episódio recente, em 2012, ele quase foi assassinado em Curitiba (PR) numa briga. No auge, o grupo dele contava com 30 membros, que frequentavam pontos tradicionais de Caxias, como a Estação Férrea, no bairro São Pelegrino. Com a ascensão da Neuland, as ações se tornaram mais violentas e o próprio Bitter passou a correr risco de vida. O plano era matá-lo e, para isso, seus antigos comparsas o convidariam para um churrasco numa casa do bairro de Galópolis, onde havia um quartel-general (QG) do movimento. No local, chegaram a ocorrer pelo menos seis festas neonazistas, uma em comemoração ao aniversário póstumo de Adolf Hitler. Em entrevista concedida à época ao jornal Pioneiro, Bitter disse que estava se livrando de um “vírus” e que sua vida tinha se tornado um inferno. Ele saiu de cena, e a organização agiu rápido para cometer pelo menos sete ataques contra homossexuais e negros em Caxias em poucos meses. Num dos casos, três travestis foram apedrejados na Rua Ernesto Alves, centro da cidade. Os autores agiam sempre em bando e circulavam com soqueiras, pedaços de pau, facas e armas de fogo.

O líder nacional da Neuland, o paulista Ricardo Barollo, foi preso em 2009 pelo duplo assassinato de Renata Waechter Ferreira, 21 anos, e Bernardo Dayrell Pedroso, 24 anos, em Quatro Barras (PR), em uma disputa de poder dentro da facção. Em dois anos, Barollo esteve diversas vezes em Caxias para manter contatos secretos com simpatizantes. Ele arrebanhou pelo menos 10 jovens para a causa. Por meio de líderes regionais, o paulista repassou armas, vindas da Argentina, aos seguidores.

Para o coordenador do Programa de Pós-Graduação em História da UCS, Roberto Radünz, a expressiva presença de imigrantes negros em Caxias é um dos principais riscos no desenrolar da nova onda de extrema-direita:

– Esses grupos (extremistas) têm algumas pautas, como, por exemplo, xenofobia em relação aos imigrantes, sobretudo africanos. Ela se estende também a populações pobres. Ideologia significa, numa definição primária, um conjunto de ideias que explicam a realidade. No caso da extrema-direita, compõem esse conjunto de ideias a exaltação da violência e crenças de superioridade.

O Batalhão Azov

Com a vitória dos bolcheviques na Revolução Russa de 1917, a Ucrânia acabou sendo integrada à União Soviética (URSS), capitaneada pela Rússia. O líder russo Josef Stalin promoveu a coletivização forçada de terras, o que matou milhares e milhares de ucranianos de fome na década de 1930, abrindo feridas históricas. Na II Guerra Mundial, houve ucranianos que apoiaram a invasão pela Alemanha nazista porque viam uma chance de se livrarem de Stalin, mas, com o curso do conflito, a situação mudou. Com a dissolução da URSS em 1991, a Ucrânia passou a ser um país independente.

A independência política não significou o fim da dependência econômica: a Ucrânia é um dos maiores importadores do gás natural produzido na Rússia. Em novembro de 2013, o então presidente Viktor Yanukovich não assinou o acordo de cooperação encaminhado com a União Europeia, levando o país a um pacto de última hora com a Rússia de Vladimir Putin, que acenava com desconto de US$ 2 bilhões anuais na compra do gás. O país entrou em convulsão social, colocando em trincheiras opostas os defensores da União Europeia e da Rússia. Milhares de pessoas protestavam diariamente contra Yanukovich na praça Maidan, na capital Kiev, que, aos poucos, virou um campo de guerra entre população e forças oficiais do governo. Em 22 de fevereiro de 2014, o presidente renunciou e fugiu para Moscou.

Nesse contexto, nasceram a Misanthropic Division e o Batalhão Azov, nacionalistas e defensores de uma Ucrânia livre da intervenção russa. Ao mesmo tempo, sobretudo no leste, cresceram movimentos separatistas, apoiados veladamente por Putin. A Criméia, de maioria separatista, foi anexada à Rússia, que enviou tropas não identificadas à região. Em abril, as cidades de Donetsk e Lugansk, pró-Rússia, declararam independência. O Protocolo de Minsk, assinado em setembro de 2014, previa o cessar-fogo e uma série de medidas para a paz, mas não está sendo respeitado.

Inicialmente, o Azov era um batalhão de voluntários. Entre 2014 e 2015, homens de várias partes do mundo se juntaram à tropa por acreditar nos ideais ultranacionalistas e no antissovietismo. Foi o caso do italiano Francesco Fontana e também de um jovem de Canoas. Em 12 de novembro de 2014, o batalhão foi incorporado pelo governo que sucedeu Yanukovich. Tornou-se um regimento da guarda nacional da Ucrânia, vinculado ao Ministério dos Assuntos Interiores, na batalha contra a “invasão russa”. Seu líder era Andriy Biletski, hoje deputado pelo partido de extrema-direita Corpo Nacional.

As polêmicas do Azov não tardaram: muitos dos seus soldados não escondiam orientações neonazistas. A própria bandeira tem um símbolo que remete ao nazismo. Biletski chegou a declarar que o batalhão tinha a missão de “liderar a raça branca do mundo em uma cruzada final pela sobrevivência”.

Fontes ucranianas com posições importantes no Brasil, ouvidas sob anonimato pela reportagem, negam que o regimento seja nazista. Dizem que um dos seus mantenedores iniciais era judeu e que o símbolo da bandeira é uma representação das iniciais I, de ideia, e N, de nação. Também atribuem à “propaganda russa” as vinculações com o nazismo, para desgastar as forças de defesa ucranianas junto à comunidade internacional. Argumentam que tropas pró-russas foram as que mais cooptaram lutadores latinos. Citam como exemplo o paulista Rafael Lusvarghi, preso recentemente na Ucrânia sob acusação de terrorismo por ter lutado ao lado dos separatistas.

Em 2015, os estrangeiros passaram a não ser mais aceitos no Azov. Em junho de 2016, o presidente Petro Poroshenko publicou um decreto em que regulamentou a possibilidade de estrangeiros serem admitidos “no serviço militar contratual nas Forças Armadas da Ucrânia”. Os guerreiros podem, inclusive, receber salários. Por isso, alguns dos críticos costumam classificá-los como “mercenários”.

Na página do Azov na internet, é fácil preencher o formulário de alistamento, com perguntas sobre vida, ideologia e habilidades dos interessados. Também são listados os treinamentos militares necessários. A reportagem preencheu o documento, mas, como resposta, recebeu a informação de que somente ucranianos estão sendo aceitos nas colunas.

O conflito na Ucrânia arrefeceu, mas não completamente. Em 18 de dezembro de 2016, cinco soldados do país morreram em combate com tropas pró-russas na cidade de Debaltseve. Foram duas horas de ataques com artilharia pesada.

Combatentes do Azov, que foi incorporado à guarda nacional da Ucrânia.

Francisco Leong, AFP, BD, 30/08/2014

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