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O pai do orgulho 
colono 

Carlos Henrique Iotti conta como deu vida, em abril de 1983, ao gringo com nome de salada e hábitos pouco recomendáveis que se tornou um patrimônio serrano


Texto
Andrei Andrade
andrei.andrade@pioneiro.com

Fotos
Felipe Nyland
felipe.nyland@pioneiro.com

Ao fisgar na memória a barriga proeminente, o bigode com as pontas para cima e o chapéu de palha do avô, de quem também fisgou o acentuado sotaque italiano e o gosto pela caça para compor um personagem encomendado às pressas, o cartunista Carlos Henrique Iotti dava vida ao mais querido herói do qual já se teve notícia no nordeste gaúcho: Radicci. Por mais que já tenha romantizado por aí que a inspiração veio de algum vizinho ou coisa parecida, a verdade é que foi na personalidade de Leon Yotti que o caxiense forjou o gringo que dia 9 de abril completa 35 anos de aventuras acompanhadas diariamente por mais de 125 mil fãs no Facebook e pelo leitores do Pioneiro, Zero Hora, Jornal de Santa Catarina (Blumenau-SC) e Diário do Sudoeste (Pato Branco-PR).


– Esse meu avô adorava caçar perdiz e perdigão. Chegou a importar da Itália uma máquina só pra fazer menarosto de perdiz. Era uma figura. Tu olha pra ele e vê que é o Radicci – compara o cartunista, apontando para uma foto de 1920 em que Leon e um amigo ostentam o resultado de uma caçada de aves.


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Radicci nasceu pelos traços incipientes de um jovem de 18 anos que naquele início dos anos 1980 convenceu os editores de dois jornais de Caxias, Pioneiro e Jornal de Caxias, a publicar suas primeiras charges políticas. Pouco depois das primeiras publicações, Iotti já havia se mudado para Porto Alegre, onde começou a cursar Jornalismo na UFRGS. Mandava duas charges por semana para o Pioneiro e uma para a Folha. Foi naquela primeira semana de abril 83 que recebeu a ligação do então editor do Pioneiro, o jornalista Paulo Cancian, que fica melhor contada nas suas próprias palavras:

– O Cancian disse que um colunista lá que escrevia não ia mais escrever, porque teve um chilique ou algo assim. Aí ele perguntou: tu encara uma página? Eu disse: claro!!!. Só que era segunda ou terça e tinha que mandar até quinta, não tinha ideia do que fazer. Aí que ele deu a deixa: “cria aí um personagem meio colonão”.

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Não resistiu a mais do que três edições, contudo, o Capitão Radicci, alterego do colono Ambrósio Marcon, que ao comer uma folha de Radicci se transformava num super-herói controverso, que em sua primeira aventura prendia um ladrão de galinhas, mas pedia como recompensa as próprias galinhas. Afeito a anti-heróis da literatura e dos quadrinhos que vivem à margem do comportamento padrão, Iotti preferiu largar de mão o lance de herói e deixar apenas Radicci, uma sátira do imigrante italiano comum, do seu cotidiano bêbado, ranzinza e porcalhão, que incomoda a mulher pudica e é incomodado pelo filho rebelde, e principalmente do seu sotaque e expressões características, caminho por onde o artista percebeu que cativava o público:

– “Non me toma boleta!”, “Non me vai no fundo!, “Passa pra drento!”. Eram expressões que todo mundo falava, mas ninguém escrevia. Quando eu coloquei no jornal, foi um estouro! Aí que eu percebi que essa era a jogada.

ACERVO PESSOAL, DIVULGAÇÃO               

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Avô do cartunista, Leon Yotti (D) serviu de inspiração para a criação do Radicci

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Iotti não é exatamente um colono. Cresceu em uma casa no centro de Caxias e o máximo que experimentava da vida rural eram as férias na chácara do avô Leon, em Jaquirana. Conforme o personagem emplacou, passou a estudar a vida na colônia, desde como se faz um vinho até a razão de existir de uma enxada. Era uma época em que ser do interior era sinônimo de ser colono, e ser chamado de colono era uma espécie de xingamento. 

– Se te chamavam de colono tu ia pra cima. “Quem é que é o colono?!?!”. Em Porto Alegre, os amigos perguntavam de onde tu era e tu desconversava, mas uma hora ia dar aquela escorregada no “ere” do Banrisul. Eu toquei nesse nervo exposto, as pessoas passaram a gostar e aos poucos o Radicci foi se espraiando. Mas isso porque ele é um personagem universal, com uma roupagem regional. Fala de briga de marido e mulher, de pai e filho. Costumo dizer que ele é um caubói do nordeste gaúcho, e os caubóis são os Radicci do oeste americano. A gente só não tem a mídia que eles têm, né? Mas já chegamos perto! O Quatrilho quase ganhou o Oscar. Tomaram um cagaço! – brinca.

O papel de Radicci na afirmação do jeito gringo de ser é difícil de mensurar, mas fato é que nenhuma outra figura real ou fictícia chegou perto em questão de identificação com a cultura do colono da Serra. Além das páginas do Pioneiro e da Folha de Hoje, ter sido publicado durante um período pelo Correio do Povo, e até hoje pela Zero Hora, dois veículos de grande circulação estadual, contribuiu para que cada gaúcho se identifique um pouco com Radicci.

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          Primeiras tirinhas do então Capitão Radicci saíram no caderno Sete Dias de 9 de abril de 1983

Além das tirinhas, Radicci ganhou carne, osso e voz em programas de rádio, participações em programas de televisão, peças de teatro e até stand-up comedy. É interpretado na maioria das vezes pelo próprio Iotti, o que contribui para que as pessoas ainda confundam criador e criatura. O gringo também empresta o rosto para dezenas de produtos licenciados, de queijo ralado a cerveja artesanal. De tempos em tempos, marcas de vulto nacional recorrem ao personagem visando facilitar a entrada no muitas vezes desconfiado mercado serrano.

Perguntado se cogita aposentar o gringo, Iotti titubeia, mas conclui que não. Ainda se diverte com o personagem, principalmente quando o põe nas situações mais absurdas, como ser raptado por alienígenas dispostos a estudar o corpo humano. Outra motivação para Radicci não cogitar aposentadoria, brinca o cartunista, são as inúmeras cartinhas que recebe:

– Todo mês tem cartinha da RGE, da faculdade, do Serasa. Essas aí que não deixam o Radicci se aposentar!

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Uma família pra estorvar

Ainda naquelas primeiras tiras de abril de 83, surgia no Pioneiro, junto com Radicci, a família que até hoje forma o núcleo coadjuvante perfeito para o gringo mostrar suas escassas virtudes e abundantes falhas de caráter, todas demasiado humanas. A esposa, Genoveva, o filho, Guilhermino, e o Nôno (que nem Iotti sabe dizer se é nôno do Radicci ou da Genoveva) nasceram com diferentes inspirações, mas todas do cotidiano que cercava o cartunista. Veterano da 2ª Guerra Mundial (mas que não lembra de qual lado combateu), onde foi piloto de avião, o Nôno é fruto da paixão de Iotti pela aviação.

– As outras crianças iam jogar bola e eu ficava em casa lendo sobre aviões, sobre guerra. Sempre foi uma faceta minha – revela o desenhista, que de uns anos pra cá voltou a explorar o gosto pela aviação na série Jaquirana Air, companhia aérea dos Campos de Cima da Serra.

Genoveva, por sua vez, tem um pouco de Zoé Maria Horn Iotti, mãe do cartunista, professora que complementava a renda fazendo tortas e doces para vender, e que cuidava dos quatro filhos com ternura, mas pulso firme. E Guilhermino, este sim, é o verdadeiro alter-ego do criador:

– O Guilhermino sou eu quando morava no Bonfim e estudava jornalééésmo na URFGS, néaammm. Ele é todo igual ao Radicci, só que ao contrário. O Radicci gosta de natureza, só que é caçador. O Guilhermino é ecologista, roqueiro, surfista, maoísta, hippie. Agora eu acabei de assistir uma série no Netflix sobre o Osho (Rajneesh, guru espiritual indiano), de certo daqui a pouco o Guilhermino também vai estar seguindo o Rajneesh (risos).

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Incorreto até a morte

Três décadas e meia de publicações diárias serviram para que Iotti criasse a casca necessária para suportar o peso das eventuais críticas a um personagem satírico, cujo comportamento vai contra o que pregam os mais ferrenhos grupos ativistas. Radicci é homofóbico, machista, conservador e predador ambiental. Numa sociedade que destila ódio pelas redes sociais e interpreta tudo ao pé da letra, o cartunista revela que tem se policiado algumas vezes, evitando algumas polêmicas desnecessárias:

– Tu publicas e sabe que vai vir bomba. Eu boto o Guilhermino com a camisa do Che Guevara e alguém já diz “ahh, eu gostava, mas agora tu botou esse assassino aí”. Os comentários no Facebook viraram um chorume só. Eu nem leio mais. A ironia virou uma coisa que tem que cuidar muito, mas se o Radicci for politicamente correto, ele morre. Fico imaginando hoje os Mamonas Assassinas, ou o Didi, que fazia piada com o Mussum. Hoje ele seria crucificado.

Alguns anos atrás, houve uma tentativa de processo por parte de um grupo de jornalistas de Porto Alegre, que denunciou Iotti por homofobia em uma tirinha de Radicci. Na Justiça, contudo, prevaleceu o bom senso.

– Recebi a intimação, fui no fórum, a juíza me olhou e disse: “olha...é um personagem, né?”. E eu disse: “é, é uma caricatura”. E ali ela entendeu que não cabia o processo.

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Um tio distante
(por Rafael Iotti)

O Radicci então faz 35 anos. Eu me lembro de algumas datas comemorativas: os 20, 25 e 30 anos do monstro. Os incautos poderiam supor que meu pai, que hoje em dia já se imiscui entre criador e criatura, o senhor – para mim senhor, que sou seu filho – Carlos Henrique Iotti, jornalista formado pela UFRGS, pai do Rafael e da Camila, pescador e contador de causos e piadas, os incautos, como ia dizendo, poderiam supor, pelos 35 anos do Radicci, que meu pai é um velho. Estarão errados. Meu pai criou esse colono anti-herói, hoje já herói, um pouco mais novo do que eu sou hoje. Acho que com 18 anos anos, o então estudante da Fabico, já imaginava e rabiscava alguns esboços de Radiccis pelas classes.

Pensar que o Radicci é cerca de dez anos mais velho que eu me espanta um pouco. O senhor Freud vai dizer que a gente vive sob a égide de nossos pais. Que a gente precisa matá-los (simbolicamente) e superá-los. Estou de acordo com isso, apesar de não entender nada de psicanálise. Supor que o Radicci me seria um segundo pai, algo meio imaginário, uma paternidade esquiva e estranha, bem, é loucura. Talvez eu encare o Radicci como tio distante, meio inconveniente, mas que vem às vezes e dá dinheiro pra gente, sabe?

Desde pequeno o Radicci estava aqui. Estou nesse momento fumando um cigarro na sala de casa, tentando escrever esse texto. Olho para o lado e me vejo criança num porta-retratos com a camiseta do Radicci. Eu gostava muito daquela camiseta. Hoje em dia tento ser escritor, ou mais precisamente: artista. E isso diz muito sobre a minha formação em casa. Todos os dias eu via meu pai desenhando, me lembro de sentar ao seu lado e tentar copiar o que ele fazia. Meus colegas, minhas professoras, meus amigos sempre me pediam pra desenhar o Radicci, e eu tive de inventar um jeito de fazê-lo.

Existe um momento na vida que a gente se reconhece, se olha no espelho, acha estranho, repete o nosso nome, acha mais estranho ainda. Eu achava estranho me chamar Rafael, mas achava mais estranho ainda algumas várias pessoas me chamarem de Guilhermino, o filho do Radicci. E desde que me conheço por gente precisei atender por esse nome. Nunca me importei, digo, pra mim nunca foi algo que me incomodou. Porque estar ligado ao nome do meu pai, ao seu trabalho, é algo que me dá orgulho. Volta e meia preciso responder sobre minhas influências na literatura, na vida, e meu pai nunca foge das respostas, porque sou um grande admirador do seu trabalho e admiro mais ainda seu estilo de vida; o modo como lida com as pessoas, com quem pede um autógrafo no meio de uma janta, com quem interrompe algum assunto importante para tirar uma foto, etc. Nunca vi meu pai ser mal-educado, pelo contrário. Meu pai sempre foi alguém muito humilde e sincero. E isso me marcou demais.

Fazer um mesmo personagem por 35 anos é algo incrível. Claro: cansativo, exaustivo, trabalhoso, etc. Mas o Radicci, hoje, tem vida própria. Já vi diversas vezes meu pai maldizer o personagem, falar da dificuldade que é desenhar todo o dia, não ter ideias, enfim. Mas manter um personagem por 35 anos, todos os dias, e quando digo todos os dias são TODOS os dias, bom, isso é um trabalho fenomenal. E as pessoas reconhecem. É lindo. Com esse texto só queria dizer que sou mais uma dessas pessoas. O Radicci sempre esteve comigo, assim como o meu pai. E eu sou imensamente feliz por isso.


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