— É uma área do conhecimento que abriga conceitos e conhecimentos que faz o ser humano tomar consciência de si mesmo e de sua relação com os outros e com o meio ambiente.
As palavras do presidente da regional gaúcha da Associação Brasileira de Medicina Psicossomática, Dorval de Andrade Tessari, nos ajudam a compreender o papel da somatização dos conflitos psíquicos no surgimento das doenças. Médico ginecologista e obstetra, ele vive a expectativa pelo 19º Congresso Brasileiro de Medicina Psicossomática, que ocorre em Caxias do Sul pela primeira vez e entre os dias 19 e 22, no UCS Teatro.
Considerada uma evolução dos estudos psicanalíticos, que ajudaram a revelar o papel do inconsciente no aparecimento de doenças, a medicina psicossomática surgiu no início do século XX, a partir da compreensão que fatores psicológicos, biológicos e sociais interagem entre si e são fundamentais para o bem-estar do ser humano. Ou seja, a sintonia entre mente e corpo é essencial para o equilíbrio da saúde.
O evento na UCS reunirá mais de 70 especialistas de áreas relacionadas à saúde, meio ambiente e ciências sociais. Serão oito cursos pré-congresso, 28 mesas redondas e mais de 50 palestras, nas quais médicos e professores debaterão temas como estimulação cognitiva para idosos, novos modelos familiares, reflexos de estados emocionais desarmônicos sobre o corpo físico e o olhar da justiça sobre os casos de violência sexual. Mesmo com caráter científico, o congresso é aberto à comunidade. Isso porque um dos seus principais objetivos é ampliar o acesso à informação, principalmente para as pessoas que buscam uma vida mais saudável física e biologicamente, a partir do equilíbrio interno e emocional.
— Queremos levar a todos o entendimento de que existem possibilidades concomitantes à medicina tradicional. As pessoas também podem buscar auxílio dentro de todos os recursos que a psicossomática oferece — ressalta Tessari, que além de presidir o congresso também será o facilitador do curso Diálogo com os órgãos: um recurso terapêutico, no dia 19.
O debate sobre novas práticas que buscam melhoria da qualidade de vida é endossado pelo Conselho Regional de Medicina do Rio Grande do Sul (Cremers). O presidente da entidade, Fernando Matos, ressalta que a somatização como causa de doenças faz parte das discussões na área da saúde.
– O Conselho de Medicina enxerga com bons olhos tudo aquilo que se refere a possíveis benefícios no tratamento da doença física. Os médicos geralmente trabalham mais nos aspectos físicos do corpo, mas os aspectos psicossomáticos são conhecidos em várias áreas da medicina. Há muitos anos se discute o aparecimento de doenças baseado na somatização e nas alterações psíquicas do paciente. A psicossomática é uma área bonita, com muitas contribuições no cotidiano – avalia Matos.
Ginecologista e obstetra com 26 anos de atuação clínico-cirúrgica em Caxias do Sul, Dorval de Andrade Tessari preside a regional gaúcha da Associação Brasileira de Medicina Psicossomática desde 2016. Para entender melhor a relação entre corpo e mente, assunto que pauta o congresso em Caxias, conversamos com o profissional, que falou inclusive sobre a relação da psicossomática com as terapias tradicionais. Confira trechos da conversa:
A Associação Brasileira de Medicina Psicossomática do Rio Grande do Sul conta com 20 membros associados, entre médicos de várias especialidades, psicólogos e fisioterapeutas.
Equilíbrio físico, emocional, social e espiritual. Para a psicóloga Márcia Dip, esses são os quatro pilares essenciais para uma vida saudável. Aos 50 anos, ela se descreve como uma pessoa leve, disposta a viver, praticar esportes e fazer novas amizades. Mas nem sempre foi assim. Em abril de 2013, Márcia foi diagnosticada com um câncer de mama maligno, o que mudaria para sempre sua forma de encarar o mundo.
– Tenho um histórico de câncer na família, tanto do lado paterno quanto materno. Perdi minha mãe devido a um tumor de pele e meus avós paternos faleceram de câncer, mas nunca passou pela minha cabeça que um dia eu também pudesse desenvolver a doença. A partir do câncer você é obrigado a mudar suas prioridades – acredita a psicóloga.
O tratamento de Márcia contemplou os métodos tradicionais, como a realização de uma cirurgia para a retirada do tumor e sessões de radioterapia e hormonioterapia, além de acompanhamento psicoterapêutico. Aí veio a certeza de que a mente bem trabalhada a ajudou no processo de cura.
– O indivíduo precisar estar bem biologicamente, psicologicamente e também no âmbito social. Durante todo o tratamento, a minha mastologista conversava com o meu terapeuta. Posso dizer que fui muito bem cuidada por profissionais extremamente amorosos e capacitados. Trago essa referência comigo até hoje.
Com o término do tratamento, ela deu outro passo importante no processo de cura: começou a praticar esporte. Aceitando o desafio do marido, que já competia em corridas de rua, a psicóloga participou de sua primeira prova: foram 5 km de superação na orla da praia, no Rio de Janeiro.
– Meu marido disse que quando o tratamento acabasse eu passaria a correr junto. Então ele me inscreveu numa prova, disse que eram apenas 3 km, mas quando fui ver na inscrição eram 5km (risos). O que me ajudou é que fiz o percurso com o Alessandro sempre ao meu lado e, na linha de chegada, toda equipe estava me esperando para comemorar junto – relata, emocionada.
A partir daí a paixão pelo esporte só aumentou. A psicóloga já acumula participação em mais de 30 provas nacionais e internacionais, como a Meia Maratona de Las Vegas, em 2015, e a de Montevidéu, no ano seguinte, além dos 50 km da Super Maratona de Rio Grande.
A professora de educação infantil Adriana Berti também enfrentou – e superou – um câncer de mama com auxílio da medicina psicossomática. Diagnosticada com tumor maligno em agosto de 2008, a professora aliou o tratamento convencional à terapia proposta por Durval Tessari. Além da cirurgia para retirada do nódulo, foram 33 sessões de radioterapia e oito anos de tratamento com hormonioterapia. No entanto, ela ressalta que ter exercitado o diálogo com o próprio corpo e com sua imunidade foi um aprendizado para toda vida.
– Aquele momento que você, aos 38 anos, descobre um câncer maligno muda toda sua vida. E a terapia me fez enxergar muitas coisas diferentes, coisas que eu pensava entender, mas que naquele momento você redescobre. Nas sessões, que eram semanais, eu aprendi a conversar com a minha mama, com o meu câncer e também com a minha imunidade. Questionei internamente o que me levou a adoecer – relata Adriana, que garante levar consigo até hoje os ensinamentos da terapia.
Outro ponto decisivo no processo de recuperação foi o contato com a família. Conforme a educadora, a doença nos ajuda a reorganizar prioridades e valorizar as coisas que, de fato, importam. Adriana conta que os laços com o marido Gilberto, os filhos Giovani Bruno e Gilberto Adriano saíram fortalecidos. Outro protagonista foi o pequeno mascote Petruchio, hoje com 17 anos, que se manteve perto nos momentos mais difíceis.
– A terapia me ajudou a olhar mais para meus filhos, meu marido e inclusive para o Petruchio, que também é da família e foi muito importante na recuperação. Era incrível! Nos momentos após a cirurgia, ele ficava grudado em mim, como se quisesse dizer “também estou te cuidando”.
Compartilhe