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O Brasil que
cantamos

Seja na voz de Geraldo Vandré ou Caetano Veloso,
a música sempre apostou que o nosso país daria certo.
Mas esse futuro ainda não aconteceu


Texto
Adriano Duarte
adriano.duarte@pioneiro.com

Fotos
Lucas Amorelli
lucas.amorelli@pioneiro.com
Felipe Nyland
felipe.nyland@pioneiro.com
Diogo Sallaberry
diogo.sallaberry@pioneiro.com
Dantas Jr, divulgação, BD 22/02/2016
Marco Fernandes, BD, 31/10/1982
Acervo Pessoal de Vera Damian, divulgação
Genaro Joner

Escute aqui a playlist que
retrata o Brasil

Ao longo da trajetória como república, o Brasil inspirou grandes canções sobre um modelo de país mais equilibrado e justo. Há exatos 50 anos, a polêmica e mal compreendida Para não dizer que não falei de flores, de Geraldo Vandré, ganhava o segundo lugar do Festival Internacional da Canção para, em seguida, incendiar protestos num país sob a batuta de militares. Era 1968, o ano que nunca terminou, e obra alcançava a 12ª posição entre as músicas nacionais mais tocadas nas rádios, dividindo atenção com os astros da Jovem Guarda, movimento oposto ao da MPB. Nos 40 anos seguintes, o Brasil e sua situação política e social invariavelmente pontuavam músicas de sucesso da MPB, do rock, do rap e do samba.

No auge do Estado Novo, período em que Getúlio Vargas esteve no poder, o célebre Ary Barroso talvez tenha se questionado se a terra tropical retratada em Aquarela do Brasil era apenas projeção de um ideal ou realidade. Anos depois, num cenário diverso daquele propagado pelo samba-exaltação, o Brasil governado por militares via a desconstrução da aquarela na voz de Elis Regina, que não acreditava na "terra boa e gostosa". Chico Buarque projetava que "amanhã há de ser outro dia". Se houve, foi um dia fugaz. Cazuza queria mudança, pedia que a máscara caísse. Estivesse vivo, Renato Russo ainda estaria tentando entender um país ferido pela corrupção, milhares de assassinatos, preconceitos, extremismos, escolas sucateadas e desigualdades, cenário caótico cantado por Chico Science.

Em 2018, as preferências definitivamente são outras. O público redefiniu a playlist — basta conferir a relação das mais ouvidas no Spotify neste mês para constatar que nenhuma composição faz alusão à situação social e política do Brasil. Estaríamos surdos pelos gritos da euforia raivosa que prega, mais uma vez, um novo recomeço nas eleições ou é a arte frustrada por uma profecia poética nunca concretizada? No Brasil, a melodia com conteúdo, por vezes panfletária, favoreceu o surgimento de muitos talentos no rock, no rap, no samba, na MPB. O ufanismo, a esperança e o pessimismo geraram manifestos que apontaram um oásis, um eldorado perdido. Ainda não deciframos o mapa para essa nação.

Hoje tudo parece ter mudado: a voz que cantava e lutava por um paraíso do futuro parece não ser mais ouvida com tanta paixão, o violão pode ter desafinado ou a multidão engoliu os versos que um dia embalaram coros. Ainda somos a nação prestes a acontecer, como imaginou a poesia em diferentes períodos.

Outros tempos


Outros tempos — Veco Martins, guitarrista do Nenhum de Nós, tem a percepção de que o brasileiro enxergava o artista como alguém com poder de mudança. Nos dias atuais, esse papel é desempenhado com cautela diante de uma parede de indiferença ou de raiva, reconhece o músico. Mais: é preciso prudência na hora de subir num palco e não acirrar ânimos, concorda Nei Van Soria. Para ele, artisticamente todo mundo tem uma posição. Às vezes, cantores não se manifestam pelo temor da exposição. Quando emitem a opinião, viram alvo de extremistas de ambos os lados, sentem o ódio das redes sociais.

— O meu álbum Neblina, por exemplo, é um disco que eu chamo de "panfletário". Me inspirei no movimento que rolou nos anos 1960, nos Estados Unidos, das canções de protesto. Por isso ele é um disco acústico, só violão e voz, porque as letras são fortes e contundentes, uma crítica a toda essa merda que a gente vive na política. Mas eu não sei qual impacto que isso tem socialmente, pois hoje em dia a gente tem uma dispersão tão grande — lamenta Nei.
Mobirise
Na década de 1980, o festival Cio da Terra, nos pavilhões da Festa da Uva de Caxias do Sul, promoveu debates e música para ao menos 15 mil jovens





“Falta vontade de fazer”, lamenta músico

Para Veco Martins, a curva guarda um futuro incerto para os brasileiros enquanto professores continuarem mal pagos, enquanto mulheres continuarem sendo agredidas por serem mulheres, enquanto as leis forem apenas frases que ninguém respeita. O guitarrista revela que é impossível não incluir Camila no setlist da banda. De certa forma, é um orgulho ter o reconhecimento do público, por outro, o hit nacional ainda é moderno pela própria denúncia que fez, retrato de um país atrasado em muitas questões.

— O Nenhum de Nós lançou essa música há mais de 30 anos. Mudou algo na violência contra a mulher? Temos a faca e o queijo na mão e falta vontade de fazer — desabafa Veco.

Quando as rádios tocaram sem parar Tempos Modernos, uma das mais bem-sucedidas canções de Lulu Santos, muita gente viu alegoria a uma nova era, um tempo "de gente fina, elegante e sincera". A canção fez sucesso num tempo de redemocratização. A elegância é que desapareceu entre multidões que nunca chegaram ser coesas. 

— Não é um erro do artista pensar num país diferente. Talvez hoje tenha mudado o engajamento, a própria música mudou, os gêneros musicais estão mais diversificados, não tem mais a MPB como coluna vertebral. Mas a relação continua sendo real, os artistas de antes e os novos continuam se posicionando — pondera o cientista político e servidor público Tarson Núñez, um dos organizadores do festival Cio da Terra, encontro lendário que promoveu debates e muita música para 15 mil jovens nos Pavilhões da Festa da Uva, em Caxias do Sul, na década de 1980.






O contexto não é mais o mesmo

Mobirise

Para a jornalista Vera Damian, o festival Cio da Terra, em 1982 em Caxias,
foi um marco para a cidade

O Cio da Terra foi concebido num 1982 divisor de águas. Era o ano de retorno do voto popular para governador, caminho que abriu o movimento das eleições diretas para presidente. O evento em Caxias se tornou emblemático por ser um "Woodstock serrano", filhote dos grandes festivais nacionais, mas com atividades agregadas para debater a educação, a sexualidade, o momento político da época, o cinema. Havia palco para Sivuca, Nei Lisboa e Geraldo Azevedo, entre outras cabeças contestadoras. A jornalista Vera Damian registrou o que viu em dois rolos de fotos. Era uma época em que os refrões faziam o sangue ferver de otimismo. Nunca mais Caxias teve algo parecido.

— Estávamos cortando as amarras da camisa de força e, apesar de pouco do que se tinha conquistado politicamente, já era uma grande vitória. No cenário musical, chegava a voz dos nordestinos. Ainda que não tivesse temas políticos explícitos, era promotora da diversidade, era revolucionário — lembra Vera.

Anos antes, a jornalista havia sido uma das vencedores da extinta Balada da Canção Estudantil do colégio Cristóvão de Mendoza com a singela Recado de Paz, de autoria da amiga Cristina Maraschin. Só a existência da Balada é suficiente para entender o quanto a música foi importante para canalizar ideias da juventude. Tarson Núñez indica as mudanças econômicas e sociais:

 — Era mais fácil ser um estudante sem dinheiro, hoje o estudante pensa em como pagar a faculdade, conseguir o emprego. Na época do Cio da Terra, havia autoritarismo, qualquer espaço para manifestação era muito bem recebido. Agora, as pessoas estão mais preocupadas com a sobrevivência. O contexto mudou. 

“As músicas que escrevemos anseiam por justiça, direitos iguais e um futuro melhor para as pessoas. Tenho certeza que a mensagem chega, sim, aos ouvidos de quem os têm para ouvir.”

Ana Caroline,

vocalista da Natural Dread

A música e o contexto social e político

Confira como a música vem retratando o Brasil desde o século 19, considerando os estágios mais marcantes, segundo o doutor e mestre em História Social da Universidade de São Paulo (USP), Marcos Napolitano:

Final do século 19 e início do século 20

O país começa a se ver mais claramente por meio da música. As belezas naturais, o sertão, o modo de vida do brasileiro e outros aspectos povoam composições eruditas, até então mais baseadas em temas europeus. Antônio Carlos Gomes, por exemplo, criou a ópera Guarani, inspirada no romance de José de Alencar. A obra fala de amor, massacre de índios e colonização brasileira. Mais tarde é Heitor Villa-Lobos quem incorpora a cultura regional na música clássica.

 Anos 1930 e 1940

O samba criado pelos negros passa a ser aceito pelos brancos a partir da introdução de Noel Rosa. O discurso de um país belo e miscigenado surge nas letras do samba-exaltação. Num flerte com o nacional-socialismo, o governo de Getúlio Vargas tentou banir o verso "terra do samba e do pandeiro" de Aquarela do Brasil _ não era bom para a imagem do país, acreditavam os censores do regime. Quando as rádios daqui e de fora começaram a tocar a música, impulsionada mundialmente por um desenho da Disney, muita gente viu ufanismo em torno de uma nação que não existia conforme a letra indicava.

Final dos anos 1950

Surge a bossa nova. Tom Jobim, João Gilberto e Vinicius de Moraes deram início ao movimento mais influente da história da música brasileira. Houve uma divisão ideológica pouco tempo depois e compositores como Edu Lobo se aproximaram do morro e encontraram sambistas como Zé Ketti. A fusão evolui para a chamada Música Popular Moderna (MPM).

Anos 1960

É a geração que explora a politização das letras e mantém diálogo com o samba dos anos 1930. Os autores agora têm formação cultural sofisticada e se deparam com a ditadura militar. O consolidação abrange o período de 1965 a 1968. A MPM passou a ser chamada de MPB. A televisão popularizou artistas como Caetano Veloso, Chico Buarque, Milton Nascimento e Elis Regina. A MPB passou a ser vista como meio de resistência ao regime militar.

Anos 1970

A censura mais rigorosa estimulou uma geração de compositores voltados à contestação. Os artistas usavam metáforas e duplos sentidos para denunciar a repressão e a violência do governo. Cálice, de Chico Buarque e Gilberto Gil, é um dos grandes exemplos.

Anos 1980

Com a abertura política, a contestação começou a diminuir na MPB. Entra em cena o rock nacional, que dominou as paradas e tinha clara influência do rock internacional. Eram duas facetas: uma apontava para o desencanto com a vida no país e a outra buscava a leveza dos novos tempos, da juventude. Que país é este?, do Legião Urbana, resume o sentimento daquela geração e ainda se mantém atual.

Anos 1990

Emerge o rap nacional, fenômeno que explora outra agenda sob a ótica de quem está excluído socialmente. É a voz das periferias, das favelas, do caos urbano. Nomes como Racionais, MV Bill e Planet Hemp abraçavam o discurso sobre o Brasil. Em outra ponta, o movimento Manguebeat exerceu forte diálogo com a Tropicália para denunciar as mazelas do país. A década é vista como o último período em que a música teve um papel marcante na contestação política e social do país.

Presente

Nomes como Chico César, Lenine, Emicida, Criolo e outros artistas seguem criando canções para falar de um Brasil injusto. A contestação ainda é forte, mas o apelo não lidera as paradas musicais como no passado. Para Marcos Napolitano, isso ocorre porque a cultura de ouvir música mudou:
— As pessoas iam a shows, ouviam as rádios, conversavam sobre tal artista e debatiam o que viam e ouviam. Hoje, o consumo é diferente, o acesso mudou, se ouve no carro, no celular, tudo é mais fácil. A MPB também era consumida pela classe média, pelos universitários, cujo gosto mudou bastante. 

Contestação com menos holofote

A contestação, no entanto, não teria perdido o fôlego nos dias atuais. Para o professor do curso de licenciatura em Música da Universidade de Caxias do Sul (UCS), Luiz Ortiz Oliveira Filho, o manifesto se multiplicou em diversos gêneros e cada um tem a sua linguagem, fala com e para o seu próprio público.

– É importante lembrar que a MPB nasceu em meio ao período da ditadura militar. E, apesar de não ser um gênero musical definido por um tipo de ritmo ou por uma característica musical específica, representou um grupo de compositores e intérpretes reunidos em torno de mensagens de debate e crítica em que a ideia de otimismo x pessimismo com relação ao regime militar e ao futuro aparece disfarçada em letras de duplo sentido – explica Luiz Ortiz.

O docente vê a MPB diluída entre movimentos que foram contemporâneos no fim dos anos 1960 e começo dos 1970, como a Tropicália, e que mais tarde influenciaram o BRock dos anos 1980.

– Compositores, em suas regiões de origem, fizeram essa síntese toda e seguem sendo cronistas do seu tempo, como Lenine, Chico César, Vítor Ramil, Paulinho Moska. O último disco do Chico César, por exemplo, tu identificas claramente a mensagem de alerta e denúncia.


Entre os artistas da nova geração, Tarson Núñez vê o rapper Emicida como representante da contestação:

– É o que tem mais qualidade literária e musical. Mas a preferência da grande mídia hoje é por artistas que não trazem mensagens.

Luiz Ortiz considera que nova geração não restringe os temas apenas na política, mas expande para as questões de gênero, tais como Francisco El Hombre, 5 a seco e Liniker. Júlia Barth, vocalista dos Replicantes, atesta essa tese.

– Se a gente ficar muito contente, o rock perde a força. Se um lado perdeu o foco, um outro está tomando as rédeas do underground. Estamos no “rolê” das mulheres, das trans, mas não pelas minorias, pelos minorizados – vislumbra Júlia.

Ultraje a Rigor prefere mudança radical 

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Roger Moreira acredita que as bandas contestadoras ainda
são prestigiadas pelo público

Em 1984, o Ultraje a Rigor cravou Inútil entre as 10 mais ouvidas no país. Era uma alfinetada. O vocalista da banda e autor da composição, Roger Moreira, imaginava que o Brasil mudaria, mas para ele, ainda não sabemos "escolher presidente". A rebeldia da juventude ainda povoa a mente de um dos representantes do fértil rock nacional dos anos 1980, hoje claramente um personagem da direita brasileira.

— Ainda estamos na fase do Inútil, um dos candidatos é fantoche de alguém que está preso — aponta Roger em conversa por telefone.

O roqueiro se considera otimista e crê que o Brasil precisa de um choque, uma mudança radical na política:

— Já morei nos Estados Unidos. Embora muita gente negue, somos influenciados por aquele país, usamos roupas americanas, comemos comida americana, usamos Iphone, Twitter, Facebook. Até não morar lá, tinha uma ideia diferente de democracia. Nos Estados Unidos, não é de cima para baixo, tudo lá é decidido com conversa. No Brasil, ou você é amigo do rei ou é populacho.

Para ele, as bandas contestadoras dos anos 1980 podem não estar no topo das paradas, mas ainda são bastante prestigiadas pelo público. Roger considera o rap como o gênero que parece mais narrar a realidade atual, mas seria uma visão distorcida.

— Damos um recado consistente e fazem quase 40 anos que estamos aí. O que cantávamos naquela época sobre o Brasil só piorou, não está nada melhor — avalia o músico.

Nei Liboa vê retrocesso

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Para Nei Lisboa, músicos traçam partituras de uma vida melhor

Nei Liboa, contraponto ideológico do vocalista do Ultraje a Rigor, reforça que um artista sempre traçará partituras de vida melhor, embora o país tenha muito mais talento para reverter sonhos. 

— Houve uma época em que havia esperança, em que a população foi bem atendida em coisas básicas como como fome, moradia, educação. Mas é de tal forma esse retrocesso que, na verdade, estamos tendo uma situação assustadora do universo fascista, assombração de um poder militar — afirma Nei, adepto da esquerda.

O músico gaúcho diz que "vai morrer acreditando" que é possível modificar o estado das coisas, "a incompetência da América Latina".

— Vivemos sob o assédio dos interesses internacionais e isto é visto como paranoia. Mas não se trata de uma sina, de um destino. A gente vive em ponta de faca para conseguir nos libertar dessa condição de escravizado, colonizado. É uma luta que vale a pena — diz o músico, citando a letra de A Revolução, composição sobre o triste 1968, ano do Ato Institucional 5, que resultou na cassação de mandatos de parlamentares contrários aos militares e intervenções em Estados e municípios.





Solução? Quando houverem mais coletividade

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Balen prefere ver um Brasil unido, da mesma forma que Gonzaguinha e Gonzagão, pai e filho que tinham visões opostas na política, mas se reencontraram

Em 1979, O Bêbado e o Equilibrista na voz de Elis Regina era uma das músicas mais tocadas nas rádios, disputando audiência com o escapismo da disco music e o romântico brega de Amado Batista. No mesmo ano, o caxiense Luciano Balen, aos seis anos, acompanhou a mãe durante a grande greve dos professores da rede estadual num protesto em Porto Alegre. Sob a ótica de uma criança, viu um país confuso, em conflito, nada muito diferente de hoje. Refletindo sobre o recorte da infância, o realizador do Festival Brasileiro de Música de Rua de Caxias engrossa a fileira dos descrentes. Numa era de extremismo, o que possivelmente ainda não é o auge da polarização, o músico e empresário de 44 anos só vê solução quando houverem mais brasileiros interessados no coletivo.

— Gonzaguinha é a síntese. A mensagem dele fica clara quando produz um disco ao lado do pai, Luiz Gonzaga, que era de direita e estava esquecido artisticamente. Ali tem uma mensagem para o nosso Brasil, no sentido de se perdoar, esquecer o que nos separa e reforçar o que nos une — sonha Balen.

Uma das mentoras do grupo suprapartidário Política de Saias, a advogada Cíntia Miele Garnier, 46, já teve seu momento de revolução. Cara-pintada que exigiu a saída do então presidente Fernando Collor, em 1992, teve a foto estampada no jornal ao lado de vários jovens ao pé do monumento da Estátua da Liberdade, na Praça Dante Alighieri. Diferentemente de 26 anos atrás, Cíntia não crê que as coisas vão se ajeitar tão facilmente a partir de um novo governo. Ela projeta a construção de um país, de fato, somente para daqui 10 anos, talvez.

— Observando agora essa foto, havia uma esperança, imaginávamos que íamos mudar o Brasil. Éramos marcados por Ideologia, do Cazuza, pelas canções do Legião Urbana. O Brasil mudou, mas não dá para dizer que está melhor. Ali estávamos como coletivo, sinto falta disso — lamenta Cíntia.
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Cíntia foi cara-pintada durante o impeachment de Fernando Collor e acreditava que esta perto de ver uma grande mudança no país.

Contestação tem, mas sem grande apelo


Administrador de empresas e músico nas horas vagas, Adriano Borges, 44, teve uma banda de expressão no final dos anos 1980. O nome era simbólico: Frutos do Erro. Após ser repreendido e discutir com o pai, Adriano leu em uma reportagem que abordava a anistia e as investigações sobre o comportamento de forças militares e policiais durante o regime militar. Aos 14 anos, compôs Exilados. A canção teve a gravação de videoclipe, execução em rádios da região e permitiu que cinco adolescentes desfrutassem de prestígio artístico. A contestação pode ainda existir, mas não tem mais o apelo da época. 

— Era muito jovem para compreensão da política; por outro lado, próprio da idade, era um contestador dos pais e adultos. Minha intenção, ao compor essa canção, era extravasar um grito de liberdade e, naquele contexto, pareceu-me pertinente a analogia de um filho desejando liberdade de ir e vir com os "filhos da nação desejando liberdades" — conta Adriano, que contagiou a filha Sofia, 15, a se dedicar à música.
Mobirise
Adriano teve uma banda de expressão nos anos 1980 e contagiou
a filha Sofia, de 15 anos, a estudar música

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