Mobirise

A obra que desafiou os engenheiros

Essa beleza que emoldura cartões-postais é consequência da construção da Rota do Sol em meio a uma reserva ambiental, com espécies raras de árvores e animais, e que precisa de mais atenção e conscientização de motoristas e moradores.

Texto
Raquel Fronza
raquel.fronza@pioneiro.com
André Fiedler 
andre.fielder@rdgaucha.com.br

Infografia e diagramação
Márcia Dorigatti
marcia.dorigatti@pioneiro.com

Fotos
Roni Rigon
Edenir Carvalho
Porthus Junior
Lauro Alves


Quem passa pela Rota do Sol entre a Serra e o Litoral tem a oportunidade de relaxar com uma paisagem de tirar o fôlego em meio à natureza. Um espetáculo proporcionado pelo relevo acidentado da encosta da Serra. Mas para vencer o desnível de 750 metros entre o topo e o pé das montanhas, num trecho de 11 quilômetros, os motoristas passam por seis pontes, sete viadutos e dois túneis. Embora essas construções tenham agilizado as viagens, elas exigiram esforços de engenharia até então inéditos no Estado. 

– Foi um desafio muito grande, principalmente na descida da Serra. Lá foram os primeiros túneis que executamos em curva e em desnível. O desafio era ter um encontro perfeito. Técnica era algo muito exigido na Rota do Sol, seja pelo traçado inusitado, pela topografia ou pela geologia – afirma Humberto Busnello, um dos diretores da construtora Toniolo, Busnello.

Humberto e o irmão Arno Busnello, além de Zaldi Toniolo, foram os responsáveis por coordenar a construção de 76,5 quilômetros da estrada nos três lotes que ficaram a cargo da empresa gaúcha. Como a empreiteira conquistou quase todo o trecho que compreende a descida da Serra, coube a ela construir os túneis e parte dos viadutos.

Durante a execução da Rota do Sol nos 11 quilômetros mais críticos, os engenheiros constataram 32 derrames geológicos diferentes. Isso significa que era necessário aplicar uma técnica de construção distinta para cada um. Não bastasse isso, as exigências ambientais também tornaram o projeto um desafio nunca antes visto.

– São cuidados especiais e fiscalização muito severa como deve ser nesses casos. Foi o primeiro grande trabalho tendo que aliar a técnica de sempre com as exigências ambientais. Foram feitos procedimentos diferentes. No desmonte de rocha, em vez de se jogar morro abaixo, teve que ser transportado por mais de oito quilômetros para depositar esses volumes num aterro controlado – lembra Humberto.

Como em qualquer estrada em regiões serranas, os construtores precisaram recortar as rochas para criar o traçado. Isso deixa encostas que podem ceder ao longo do tempo e precisam ser contidas por barreiras. E nesse assunto a Rota do Sol trouxe outra inovação ao Estado. Entre o Viaduto da Cascata, na descida da Serra, e o Túnel da Reversão, telas fazem a contenção dos paredões para garantir a segurança dos motoristas e a integridade dos pilares do viaduto. Para quem olha, parece simples, mas a complexidade na fixação das telas exigiu tecnologia importada da Suíça.

– Imagine um grande bloco de pedra caindo. Tem que ter resistência para a contenção disso tudo – detalha Humberto.

A necessidade de realizar grandes construções com o menor impacto ambiental possível chegaram a resultar em sete anos de obras paradas até a liberação de licenças na década de 1990. Dez anos depois da conclusão, porém, a natureza e a engenharia seguem encantando quem contorna as montanhas da Rota do Sol.

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CONSTRUTORES

Os irmãos Humberto e
Arno Busnello (foto),
além de Zaldi Toniolo, coordenaram
a construção de túneis
e viadutos na descida
da Serra, além da pavimentação de 76,5 quilômetros da Rota


“Foram os primeiros túneis que executamos  em curva e em desnível.  O desafio era ter um encontro perfeito”,
conta dono de construtora 

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Engrenagens congeladas

O clima dos Campos de Cima da Serra também desafiou o andamento dos trabalhos e exigiu coragem dos construtores, especialmente de quem veio do Nordeste do país. Durante obras entre Lajeado Grande e Tainhas, a Toniolo, Busnello precisou fornecer macacões, luvas e sobretudo para que os funcionários enfrentassem as baixas temperaturas. As máquinas também tinham problemas de aquecimento e, por vezes, as engrenagens congelaram devido ao frio. Com condições inóspitas, havia dias em que as obras não podiam continuar.

– Nós ficamos três dias parados por causa de neve. Não tinha as mínimas condições de trabalhar. Outros dias não trabalhamos à noite porque a temperatura era muito baixa – recorda Humberto.

Temperaturas abaixo de 10ºC impedem a aplicação do asfalto, problema também enfrentado quando há umidade no solo. Como na descida da Serra há pontos onde nunca bate sol, a solução era esperar por dias mais secos.

Maravilhas da construção

Obras complexas foram pensadas para aliar o melhor traçado com preservação ambiental:

Viaduto da Cascata: 

Com 340 metros de extensão, o viaduto em S (foto ao lado) é sustentado por 13 pilares e 72 vigas costeando a Serra do Pinto. Com altura que varia entre 15 e 30 metros do solo, é considerada a maior obra da Rota do Sol e foi a última a ficar pronta, em 2007.

Túneis da Reversão

Com 445,2 metros de extensão, são os maiores túneis da Rota do Sol. Foram construídos já com pistas duplicadas.

Túneis do Arroio Carvalho

Primeiros túneis construídos na Rota do Sol e também uma construção pioneira no Estado. Possuem 388,8 metros de extensão e também já são duplicados. Ao lado dos túneis da Reversão, totalizaram um total de 80.297,52 m³ de volume de rocha escavado (ao lado).

Viadutos da Reversão

Têm 118 metros de extensão e ligam os túneis da reversão ao restante da estrada. Possui pistas duplicadas.

Ponte sobre o Arroio Carvalho

Com 300 metros de extensão e 22 metros de altura, fica na junção de dois arroios junto ao pé da serra. A construção da ponte permitiu a preservação de um sítio arqueológico ao lado da rodovia. 

Contenção de encostas

Engenheiros foram à Suíça buscar tecnologias para fixar barreiras de contenção entre o Viaduto da Cascata e os Túneis da Reversão. A técnica, inédita no Estado até então, permitiu a fixação de telas metálicas na encosta. A estrutura é capaz de suportar blocos de pedra que eventualmente possam se desprender da encosta.

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